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sábado, 14 de abril de 2018

Os Filhos do Anjo Caído - Capítulo 8: Destino: Cidade Draconiana


A noite vai embora, dando lugar para o dia. Kyle e Darwin vão para o Porto de Hong Kong se encontrar com a tripulação pirata. De fato são jovens, provavelmente até mais jovens que Kyle. Ela é composta por Yin, Chang e Li. Yin é quem os cumprimenta, enquanto Li permanece olhando para Kyle:
- Uma tripulação de três. – diz Darwin com tom de menosprezo em sua voz – Nunca vi isso.
- É que estamos começando. – diz Yin – Mas nós vamos nos tornar grandes piratas.
- Se é isso o que você quer para a sua vida. Vamos começar a viagem.
Eles vão para o barco da tripulação. É um barco com uma aparência envelhecida, porém grande o suficiente. Yin pega o leme e eles partem de lá:
- Então... – diz Darwin caminhando até Yin – Vocês sabem para onde nós estamos indo?
- Sabemos sim. – diz Yin sorridente.
- E isso não os deixa com medo?
- Não. Isso será bom para a nossa reputação.
- Então tomara que você sobreviva para ter uma reputação.
- Eu não tenho medo de dragões. Nem de demônios. – diz ele olhando de forma arrogante para Darwin.
No lado externo do barco, Kyle olha com admiração o mar e Hong Kong ficar cada vez menor à medida que eles avançam em direção à temida Cidade Draconiana. O momento o faz pensar novamente em Celiny. Como ele queria parar de pensar ela! Ele se lembra das vezes em que ela disse que queria viajar pelo mundo, e que ele deveria fazer o mesmo. Que ele deveria fazer mais do que ser apenas um serviçal no castelo. E agora ele está fazendo isso, saindo de Hong Kong e indo para a Cidade Draconiana. Mas uma parte dele queria que Celiny estivesse com ele, mas de resto ele está mais preocupado com a recompensa e em chegar até à Chama de Deus, se é que isso realmente existe, mas se de fato existir, ele poderá mudar sua vida para melhor.

Enquanto Kyle está olhando para o mar com admiração e, pela primeira vez em sua vida, ânsia pelo desconhecido, Celiny está olhando para Londres, mas o brilho que tinha em seus grandes olhos verdes está apagado. Seu grande amor se foi e ela agora se casará em dois dias com alguém que não ama. O casamento foi anunciado ontem. É como contar os minutos para o fim do mundo, mas o mundo dela já acabou.
Dia seguinte. Falta um dia para o casamento. As famílias estão entusiasmadas e o assunto é o mais comentado nos jornais e emissoras de rádio. A jovem desce as escadas e caminha em direção ao piano. Ao se sentar ela começa a tocar, mas as melodias, por mais que ela esteja tocando bem, soam vazias, desprovidas de alma.
Ela se levanta e caminha pelo jardim, o único lugar que traz alegria para ela na casa. Enquanto ela permanece olhando para as flores, Carrie vem conversar com ela:
- Você está bem, minha criança?
- Estou bem, obrigada.
- Sente falta dele, não sente?
- Crescemos juntos, e eu o abandonei.
- Ele é um demônio. Você tinha que se afastar dele, ou ele te mataria.
- Ele nunca fez nada para me machucar.
- Mas iria fazer cedo ou tarde.
- Como pode dizer isso? Ele cresceu aqui, nós o conhecemos. Ele nunca faria nada para nos ferir.
- Foi assim que eles fizeram centenas de anos atrás quando se aliaram às Foices Vermelhas. Viveram entre nós, e então tentaram nos matar. Quase causaram o apocalipse.
- Kyle não é assim.
- Acredite em mim quando digo, Kyle ter saído daqui foi bom. E agora um futuro bom te aguarda.
- Com o príncipe da Irlanda? Ele e nada é a mesma coisa para mim.
- Ele gosta de você. Gosta muito de você.
- Mas eu não gosto dele.
- Seus pais também não se amavam quando se casaram, mas com o tempo esse amor foi surgindo na base da confiança. Ele pode não ser o que você quer agora, mas...
- Eu não me importo. Eu não quero ficar com ele, e se pudesse não o veria nunca mais.
- Escute minha querida... – diz ela colocando as mãos sobre o rosto da jovem – Eu sei que não tenho o direito de falar isso, pois sou apenas uma criada, mas você é a Grande Princesa da Europa, e infelizmente...
- Isso quer dizer que eu tenho de abrir mão de certas coisas. Eu sei disso! Eu sei.
Dia seguinte. Casamento. O castelo, localizado no coração de Londres e ao mesmo tempo isolada dela, abriu suas portas para sua população e para os governantes de todo o continente para que possam acompanhar o grande evento. O príncipe irlandês está trajando um smoking verde escuro, com uma camisa verde claro e sapatos pretos.
Enquanto ele aguarda no altar ao lado de seus pais, Celiny está em seu quarto, com as criadas terminando de vesti-la. Seus cabelos estão ondulados, os lábios com um batom rosa claro e o seu vestido é cor creme. Ela olha para o espelho, treinando o sorriso para quando estiver lá no altar.
O momento chegou! Ela está caminhando em direção ao altar, com os olhares alegres e flashes das câmeras fotográficas. Seu coração está acelerado. Ela sente o suor descendo por suas costas dentro do vestido. Ela continua caminhando. O príncipe a olha, um olhar encantador, um olhar que pela primeira vez faz com que ela não sinta repulsa dele.
Ela sobe os degraus e logo está com as mãos dele segurando as dela. Os violinistas cessam a música e o padre começa a proferir as palavras. E então chega a pergunta:
- Você a aceita como sua legítima esposa?
- Aceito. – responde o príncipe.
A mesma pergunta é feita para Celiny. Ela demora um pouco para responder, mas diz o que todos já esperam que ela diga:
- Aceito.
- Se há alguém que deseja impedir o casamento, que fale agora ou cale-se para sempre.
Ironicamente alguém se expressa, mas não por meio de uma voz, mas por meio de balas disparadas que atravessam as nucas do Grande Rei e Rainha da Europa. Os guardas se prontificam e uma troca de tiros entre os guardas e membros das Foices Vermelhas. Celiny corre desesperada até o corpo sem vida de seus pais. Carrie e o príncipe a levam para os fundos, enquanto todos fogem pelos portões do castelo. Mas é tarde demais, as Foices Vermelhas já estão lá e estão pintando o chão do castelo com o sangue de inocentes:
- Quanta arrogância! – diz Edward – Foram tolos de terem deixado as portas do castelo abertas.
Os policiais da Scotland Yard chegam e enfrentam os criminosos, alguns são abatidos, e percebendo que a desvantagem está aumentando Edward foge com alguns de seus seguidores o acompanhando, enquanto outros são presos ou mortos.
 À noite, Celiny está em seu quarto, sentada em frente a uma escrivaninha chorando pela perda de seus pais. O príncipe entra em seu quarto, colocando as mãos sobre os ombros dela na esperança de tentar confortá-la:
- Tire suas mãos de cima de mim. – diz ela em um tom calmo, porém autoritário, sem se virar para olhar para ele.
- Perdoe-me.
- O que está fazendo aqui?
- Vim ver como minha esposa está.
- Pare de me chamar assim.
- Eu sei que isto deve ser difícil para você...
- Para! – grita ela – Estou farta de todos quererem descrever como eu me sinto. Nenhum de vocês sabe o que eu sinto.
- Eu sinto muito...
- Você deve estar adorando isso, não é?
- Me desculpe, acho que não entendi.
- Eu estou agora em meu momento mais vulnerável e você vem como um príncipe de contos de fadas para me resgatar, achando que vou cair em seus braços. Vá para o inferno.
- Eu sei que não deve gostar de mim, e não a culpo. Mas Celiny eu não... Eu não quero de forma alguma me aproveitar de você. Eu...
- Me deixa em paz!
Ela se levanta em fúria cega e o esbofeteia. Quando nota a sua mão latejar ela olha para o rosto de Declan, vendo o vergão que se formou em seu rosto com o tapa:
- Me desculpe. – diz ela se sentindo enojada com o que fez.
- Eu... – diz ele massageando o rosto – Eu entendo que esteja irritada. Só quero dizer que sinto muito mesmo pelo o que aconteceu aos seus pais.
- Tem algo mais para dizer?
- Apenas isso. Se precisar de algo estarei em meu quarto.
- Preciso sim.
- Do que?
- Diga a todos do castelo que não quero ver ninguém. E feche a porta quando for sair.
Ao sair do quarto dela Carrie vem falar com Declan:
- Como ela está?
- Ela precisa de um tempo sozinha. Por favor comunique aos outros que ela não deseja ser incomodada.
- Farei isso.
Um campo florido, uma garota sentada em meio a ele. Ele anda até ela e a toca no ombro direito. Ela se vira olhando para ele com os seus olhos verdes:
- Preciso de você, Kyle.

Kyle acorda, se amaldiçoando por não conseguir parar de pensar em Celiny.
Em Londres a manhã está cinzenta, refletindo o coração da nação. Enquanto está sendo realizados os preparos para a cerimônia de enterros do Grande Rei e da Grande Rainha, Declan, segurando um porta retrato em sua mão esquerda, vai até o quarto de Celiny e bate na porta com sua mão direita:
- Vai embora! – grita ela.
- Celiny, sou eu.
- Não quero ver você, vai embora!
- Eu só quero conversar.
- Vai embora!
Declan tira uma chave de seu bolso direito, uma cópia da chave que abre o quarto de Celiny. Ele a insere na fechadura e a abre. Ele caminha até a cama dela, onde ela está deitada, mergulhada nos cobertores, estando virada para a parede, à sua esquerda:
- Amor, você tem que...
- Cala a boca! – ela se vira para a direção dele e se senta na cama – Nós estamos noivos, mas você não significa nada para mim. O que você veio fazer aqui?
- Vim ver se você está bem.
- Agora que já viu você já pode ir.
- Você tem que se aprontar para o funeral.
- Eu não vou.
- Mas...
- Eles já estão mortos, não faz diferença.
- Eu trouxe isso para você.
Ele estende a mão esquerda e lhe dá o porta retrato, que contém uma foto antiga, de 2014. Olhando para a foto ela sente uma instantânea sensação de leveza. No dia em que a foto foi tirada, ela e Kyle estava em um piquenique com os pais dela. Foi um dia tranquilo e agradável, e é o espírito daquele dia que ela sente ao olhar para a foto, mas logo vai embora e em um ataque de fúria ela arremessa o porta retrato no chão:
- Por que você teve que me mostrar isso?
- Achei que te faria bem.
- Ah, é mesmo?! – grita ela – Kyle se foi e meus pais estão mortos! Como ver uma foto deles me faria bem?
- Acha que ficar gritando comigo vai adiantar alguma coisa?
- Eu te odeio.
- Pode me odiar o quanto quiser, mas neste momento não tem apenas uma nação, mas todo um continente que necessita de seus governantes. As pessoas que você ama não estão mais aqui, mas seus pais não iriam querer que você desse as costas para tudo. Há uma ameaça que precisa ser detida, e se você não se levantar, não se erguer, a situação só irá piorar porque há muita gente querendo o trono. E não precisamos de um conflito político interno para piorar as coisas.
- Você pode lidar com isso.
- Sim, eu posso, mas não quero lidar com isso sozinho. Escute – ele se ajoelha e pega as mãos dela – eu não sei a dor que você está sentindo. Só posso imaginar. Mas se você quer honrar a memória deles, dos seus pais. Se você quer honrar o legado deles então é hora de você ser a Grande Rainha que eles sabiam que você seria um dia.
Por mais que ela não queira mais ver a cara de Declan, Celiny sabe que ele tem razão. Ela se banha, se veste e vai até a cerimônia de enterro dar um último adeus aos seus pais, fazendo uma promessa silenciosa de que fará o possível para honrá-los.
À noite eles concluem a cerimônia de casamento, deixando a segurança reforçada desta vez, e são coroados. Com a coroa em sua cabeça, é como se Celiny sentisse que seus pais estão ali do seu lado congratulando-a por assumir o papel deles, e embora não seja e nunca será o suficiente para afastar a dor em seu coração, já é o bastante para fazê-la sentir-se feliz e com um pouco de esperança.
No coração do oceano, dentro do barco a caminho da Cidade Draconiana, Kyle está jogando cartas com Li, com quem tem conversado bastante nesses últimos dois dias. Li tem 23 anos e veio de uma família de camponeses. Buscando algo maior em sua vida, ela deixou a casa de seus pais, e seu caminho se cruzou com os de Yin e Chang, e o objetivo deles se tornou o dela também:
- Você é péssimo nisso. – diz ela com sotaque.
- Jogar cartas nunca foi o meu ponto forte. Aidan e Ben sempre me venciam.
- Aidan é o homem que criou você, certo?
- Isso.
- E Ben o seu amigo que trabalha cortando carnes.
- Isso.
- Sinto muito pela morte do Aidan.
- Obrigado. Não consegui me vingar, mas com certeza irei fazer isso.
- Você realmente os enfrentou sozinho? Não que eu esteja reclamando, mas foi bem corajoso e...
- E estúpido?
- Enfrentar um número grande de oponentes estando sozinho? Sim. – responde ela rindo – E o que você pensa sobre o Darwin?
- Ainda não confio nele. Mas o que ele está oferecendo vale a pena o risco.
- Mudar o passado. Acredita mesmo nisso?
- Eu não posso dizer que acredito totalmente nisso, mas se realmente existir posso impedir a morte do Aidan, e da minha mãe. Eu posso desfazer todas as coisas ruins que aconteceram comigo. Não aceitaria uma oportunidade como essa?
- Talvez.
- Então você não tentaria?
- Não é isso. Quer dizer, quem não iria querer, mas talvez fosse melhor deixar as coisas como estão. Nós sempre estamos fazendo erros, é parte de ser humano.
- Mas alguns erros deveriam ser consertados. Tem que ser. Se fosse você, não tentaria mesmo mudar alguma coisa na sua vida?
- Talvez toda ela. Mas essa é a vida que eu escolhi, e eu vou dar um jeito nela.
- Como?
- Eu estou juntando dinheiro. Só mais alguns trabalhos pelos próximos dois anos e aí eu irei fazer algo melhor.
- Espero que você consiga.
- Só não destrua o mundo se você encontrar essa Chama de Deus.
- Deixa comigo. – diz ele dando um leve sorriso.
Eles ouvem um estrondo. Algo bateu no barco. Chang corre e pede para eles subirem. Eles sobem rapidamente e veem algo inacreditável: os híbridos draconianos! A boa notícia é que isso significa que eles estão perto da Cidade Draconiana, mas a má notícia é que as quatro criaturas magníficas diante deles estão cuspindo fogo no barco. Kyle consegue pegar o fogo no barco, como se estivesse chamando o fogo para ele, e o direciona para atacar os draconianos, o que logicamente não surte efeito nenhum:
- Você realmente achou que atacar uma criatura que cospe fogo com fogo iria adiantar alguma coisa?! – grita Darwin.
- Eu achei que fosse dar certo!
- Maldito novato.
Darwin estende as mãos, fazendo a água ao redor deles se erguer e a usa para envolver os draconianos, que tentam se libertar, mas não conseguem. Ele transforma a água que os está envolvendo em gelo, congelando-os, e faz o gelo se partir em seguida com os pedaços deles:
- Bem... – diz ele se virando para Kyle e os demais – É assim que se faz um ótimo trabalho.
Um draconiano surge do chão do barco e agarra Darwin, esfolando sua garganta com suas garras brilhantes. Assustados, Yin, Chang e Li atiram nele e nos outros dois draconianos que aparecem. Um deles se aproxima com seu corpo humanoide escarlate forte e escamado, quase reluzente, e agarra Yin, rasgando a pele do rapaz com suas próprias garras. Kyle se joga em cima dele e tenta atacá-lo com socos, mas o draconiano o arremessa no chão e cospe fogo nele.
Kyle posiciona seus braços de forma a proteger seu rosto e apesar de inicialmente sentir dor, seus braços mudam de forma. Ele se levanta e tenta atacar novamente a criatura com socos, mas o draconiano é extremamente ágil e se desvia de todos os golpes. Ele se vira, alastrando suas asas, e com a ponta da asa direita golpeia Kyle, com um corte profundo no abdômen.
Chang corre para dentro do barco, abre um baú e pega duas espadas. Ele retorna correndo, jogando uma espada para Li, e pula na direção de um draconiano. Li olha a situação com medo, uma reação normal para qualquer um. Mas Chang não dá lugar para o medo. A excitação de estar lutando com uma criatura como um draconiano é maior. Ele consegue cortar o ombro de um deles. Sente orgulho de si próprio, imaginando que quando voltar para casa ganhará o respeito de outros piratas, talvez até tornar-se o maior pirata da China, ou da Ásia. A possibilidade de matar um draconiano o impulsiona a prosseguir a luta, mas o ataque é bloqueado, e o draconiano com o qual ele está engajando a luta cospe sua saliva flamejante, derretendo a lâmina da armadura, fazendo com a lâmina, agora líquida, caia nas mãos de Chang. Ele grita de dor e o draconiano enfia suas garras nos olhos dele e esfola sua garganta.
Mais draconianos estão vindo. Darwin se ergue, com o corte no pescoço começando a se regenerar. Avistando o que se assemelha a um ponto verde no horizonte, e o que o faz pressupor que a ilha esteja perto, Kyle abre um portal. É um movimento arriscado já que ele não sabe em que lado da ilha vai parar, mas não há muita escolha. Ele grita para Li entrar e a jovem atravessa o portal sem pensar. Ele grita para Darwin e ele atravessa o portal também, mas não sem agarrar Kyle pelo braço.
Eles caem em uma floresta:
- Para onde você nos trouxe Kyle? – pergunta Darwin.
- Acredito que aqui seja a ilha. – responde Kyle – Pelo menos eu espero que seja.
- E se eles nos acharem? – pergunta Li.
- Não se preocupem! – diz uma voz grave.
- Quem está aí? – pergunta Darwin.
- Não temam. – diz a voz.
As folhas dançam enquanto passos são ouvidos. Das folhas surge um homem de vestes rasgadas e velhas, com luvas cobrindo suas mãos. Seus cabelos se estendem ao ombro e sua pele é bronzeada. Seus olhos castanhos os encaram, mas o olhar não é de alguém que está se sentindo ameaçado, mas de alguém que está dando as boas vindas:
- Muito prazer – diz o homem – Eu me chamo Jason. Bem-vindos à Cidade Draconiana.

domingo, 25 de fevereiro de 2018

Os Filhos do Anjo Caído - Capítulo 7: O Grande Cassino Chinês

Após se arrumar, Kyle retorna para o lado de fora da casa de Darwin. Ele abre um portal e eles chegam a Hong Kong, em uma parte isolada da cidade a fim de não chamarem atenção:
- Como você faz isso? Abrir um portal que leva você de um lugar a outro.
- Você tem que pensar muito em um lugar que você quer ir, e imaginar que há uma porta à sua frente que irá te levar para esse lugar. Mas você tem que saber que lugar é esse, tem que conhecer o lugar antes de ir.
- Para não ir parar em lugar inóspito.
- Exatamente. Soube de um de nossos familiares que foi usar o portal sem saber o local e foi parar em uma tribo para canibais.
- Uau.
De onde eles estão demora apenas uns vinte minutos para chegar ao Grande Cassino Chinês. Darwin havia dito a Morris que já ouvira falar desse lugar, mas na verdade ele frequentou o estabelecimento cinquenta anos atrás. Ele havia gastado muito dinheiro apostando e teve um sério desentendimento com um dos funcionários, e ele encerrou a discussão enterrando-o vivo no asfalto.
Retornar depois de todo esse tempo o faz se sentir levemente nostálgico, mas o que o interessa é o dinheiro que o tal Sr. Wen está disposto a pagar.
O Grande Cassino Chinês é enorme, majestoso, com duas pilastras pintadas de vermelho e dragões de ouro encrustados em volta delas. Por dentro é como um cassino de Las Vegas, mas obviamente com um toque chinês.
Darwin vai até o balcão de recepção e pede à recepcionista que avise ao Sr. Zhang que ele chegou e o está aguardando. Alguns minutos depois três seguranças caminham até Darwin e Kyle e os escoltam em direção ao elevador, que sobe 15 andares. As portas se abrem quando eles chegam ao quarto andar. Os seguranças os escoltam até à sala do Sr. Zhang.
Sr. Zhang é um homem que aparenta ter mais de 40 anos. Comprou o estabelecimento cinco anos atrás. Suas vestes são vestes tradicionais. Ele está sentado à mesa fumando um cigarro e sua expressão é vazia, tediosa:
- Quem de vocês é o Darwin? – pergunta ele falando com sotaque e com uma voz monótona.
- Eu. – responde Darwin.
- E ele? – pergunta Wen apontando para Kyle.
- Meu aprendiz.
- Não vou aumentar o pagamento.
- Eu consideraria.
- E por que eu faria isso?
- O senhor sabe quem eu sou para querer os meus serviços, certo?
- Claro que sei.
- Então já é razão suficiente para fazer o que eu mandar que você faça.
- Você é apenas uma mão de obra. Se continuar falando assim comigo na frente dos meus homens, eu mando matar vocês dois aqui e agora.
- Eu não recomendaria isso. Alguém pode acabar morto.
- Sr. Darwin, alguém como eu não chega aonde chegou sem que os outros mostrassem respeito. E para que os outros tenham respeito por você, é necessário ser o que alguns consideram, como posso dizer... consideram ser hostil. Atirem neles agora.
Os seguranças pegam suas armas e, estendendo os braços na altura de suas cabeças, apontam para as cabeças de Darwin e Kyle. O rapaz se desespera e pede para Darwin tirá-los de lá. Ao puxarem o gatilho a bala fica presa. O cano das armas se retrai e cresce no lado oposto da arma, liberando as balar que perfuram a cabeça deles:
- O que aconteceu? – pergunta demonstrando pavor em sua voz.
- Apenas demonstrando o que posso fazer. Agradeça-me por não ter matado você.
A expressão de Zhang muda, tornando-se séria. Ele muda sua postura e apaga o cigarro no cinzeiro. Isso é um ótimo sinal para Darwin, pois indica que ele o está levando a sério, embora ele ainda se pergunte por que Zhang lhe tratou como um idiota qualquer mesmo tendo conhecimento de sua ascendência peculiar:
- Agora vamos começar de novo, Sr. Zhang. Morris me informou que o senhor quer os meus serviços para recuperar uma carga que um grupo de piratas, com quem o senhor tem negócios provavelmente, perdeu. Poderia contar a mim e a meu aprendiz mais a respeito?
- Sim. – diz Zhang com medo visível em sua voz trêmula – Tenho negócios com piratas locais e, mensalmente, eles me dão alguma mercadoria de valor para que eu compre deles.
- A qual eles adquiriram de modo nenhum pouco nobre.
- Isso, não lhe...
- Controle suas palavras, Sr. Zhang. Não quer se aposentar como os seus funcionários, quer?
Kyle está fazendo o máximo possível para manter uma expressão neutra, mas está se divertindo com a forma como Darwin está controlando o Sr. Zhang, obrigando-o a se comportar da forma como ele quer:
- São piratas. – responde Sr. Zhang – É claro que eles não obtiveram a mercadoria de forma nobre.
- O que é essa mercadoria?
- Um carregamento de pedras de jade.
- Ah, entendo agora por que você as quer de volta. Morris disse que essa mercadoria foi perdida perto da Cidade Draconiana.
- Cidade Draconiana? – pergunta Kyle espantado.
- Sim. – responde Zhang – O navio foi atacado pelos híbridos. Apenas dois conseguiram escapar com vida, mas um deles voltou mutilado.
- Me perdoem a intromissão. – diz Kyle – Mas se a Cidade Draconiana é tão perigosa, por que você quer as pedras de jade de volta?
- Porque elas são raríssimas hoje em dia. – diz Zhang esboçando um leve sorriso – Muitos venderiam até suas propriedades para tê-las. Um homem de negócios como eu não poderia perder a oportunidade de tê-las.
- E você está disposto a pagar quanto? – pergunta Darwin.
- 500.000.
- 500.000? – pergunta Darwin rindo – Quando Morris me disse que o pagamento era alto eu pensei que realmente fosse alto.
- É alto.
- Não para mim. 500.000 para pegar recuperar uma mercadoria na Cidade Draconiana é bem pouco para mim, Sr. Zhang.
- Quanto quer então?
- 10 vezes mais.
- 5.000.000? – pergunta Zhang furioso – Você enlouqueceu?
- Pergunte aos seus funcionários ali no chão. Eles devem estar refletindo nisso.
- 700.000.
- 5.000.000.
- 800.000.
- 5.000.000. Não quero menos que isso.
- Já disse que não vou...
- O senhor pode procurar outra pessoa para o serviço, ou então, se continuar com sua grosseria desnecessária, Sr. Zhang, pode tentar brincar com os seus funcionários ali no chão. Tenho certeza de que eles estão felizes por estarem com a cabeça mais vazia, sem sentir o peso do mundo nas costas. Deixe-me perguntar a eles. – ele se vira e olha para os seguranças mortos – Vocês estão sossegados? Sério? Que bom! É ótimo ouvir isso. – ele volta a olhar para Zhang – Talvez queira sentir essa sensação.
- Não, Sr. Darwin. – diz Zhang olhando para os corpos de seus seguranças – Eu pagarei os 5.000.000.
- Agora.
- Mas o senhor ainda nem está com a mercadoria em mãos.
- Gosto de me garantir. Quero o dinheiro agora.
Zhang se levanta e abre o cofre, localizado à sua direita, atrás de um quadro cuja pintura é de uma mulher em um riacho. Ele pega a quantia e a guarda em uma pasta preta, entregando-a em seguida para Darwin:
- Espero que realize o serviço direito, Sr. Darwin.
- Eu sempre cumpro os meus serviços, Sr. Zhang.
- Ótimo. – diz ele se sentando em sua cadeira – Eu preparei uma embarcação para vocês. É uma nova tripulação de piratas, são jovens. Eles estarão esperando vocês amanhã, no porto de Hong Kong, para os levaram ao local onde os híbridos roubaram a minha mercadoria.
- Provavelmente eles não sabem que podem morrer. – diz Kyle.
- O anseio pelo dinheiro é maior. – diz Zhang.
- Bem, acho que nossa reunião está encerrada. Muito bom fazer negócios com você, Sr. Zhang. – Darwin se levanta, pega a pasta e abre um portal – Hora de irmos, Kyle.

- Isso está se tornando uma loucura. Eu devia ter deixado eles me matarem.
- Você é meio mau agradecido, não é?
- Escute Darwin, obrigado por ter me ajudado, mas eu não saí de uma panela de pressão para entrar em outra. Eu descobri há algumas horas que sou descendente de Lúcifer e agora descobri que iremos para um lugar onde vivem os draconianos. Eu quero melhorar minha vida, não a arruinar mais ainda.
- Hum... Vejamos, nasci em 1901, então tenho... 127 anos. Você está com 25, certo?
- Sim.
- Já fui idiota na sua idade. Acho que quase todos os jovens costumam ser idiotas.
- Eu não sou idiota.
- Sim, você é. Você quer ter acesso a coisa mais poderosa que existe. Acha que vai ser de graça?
À noite, no que é por enquanto o seu quarto, Kyle imagina como deve ser a Cidade Draconiana. Ele tinha certa noção devido ao livro que Celiny tinha. E novamente Celiny vem a sua mente. Por mais que tente não consegue tirá-la de sua mente, pois ela vive em seu coração.
Ele se levanta, pensando no que Darwin falou sobre como abrir um portal que o leve para outro lugar. Ele fecha os olhos e pensa no quarto de Celiny, imagina que há uma porta diante dele e imagina tocar essa porta. Funcionou! Ele consegue abrir um portal e vê Celiny deitada na cama dela. Ela se vira, quase como se tivesse sentido sua chegada, e o vê.
O coração de Kyle acelera. Ele não esperava que ela acordasse. Ela levanta e corre até ele, mas antes que ela possa tocá-lo, abraçá-lo, ele fecha o portal. Ele ainda a ama, mas a raiva que ele sente por ela tê-lo abandonado é maior.

Os Filhos do Anjo Caído - Capítulo 6: Morris


Darwin abre um portal que o leva para as docas. Lá ele se encontra com Morris, um homem de baixa estatura e de rosto simpático. Toda semana eles se encontram aqui por ser um local tranquilo e é aqui onde Morris passa as propostas de serviços para Darwin. As pessoas que costumam solicitar os serviços dele são tanto homens de negócio que querem roubar algum segredo de outros empresários para obter mais lucro quanto piratas que querem alguém para auxiliá-los caso se deparem com as autoridades ou para facilitar a captura de alguma carga preciosa, especialmente se a carga estiver em um lugar hostil:
- Morris, como vai? – pergunta Darwin dando um forte aperto de mão em Morris.
- O de sempre. – diz Morris enquanto acende um cigarro – E com um servicinho novo para você.
- É algum fácil?
- Você sabe que para alguém como você não existe serviço fácil.
- Claro que não.
- Sr. Zhang, dono do Grande Cassino Chinês.
- Já ouvi falar. Para o que é?
- Um navio pirata estava contrabandeando uma carga valiosa contendo diamantes, mas no percurso tiveram um grande imprevisto e a carga se perdeu.
- Eles querem que eu recupere a carga.
- Sim.
- Bem, então não vai ser algo difícil.
- Eles perderam perto da Cidade Draconiana. – diz Morris fazendo uma expressão séria.
Darwin sente um frio na barriga só de ouvir o nome do lugar. A Cidade Draconiana é uma ilha ocupada por híbridos de humanos e dragões, e quem é apenas humano não costuma sair vivo de lá:
- O pagamento é grande?
- Muito.
- Então vale a pena. – diz Darwin se acalmando e olhando para Morris com um largo sorriso.
- Mas até mesmo alguém como você pode ter dificuldades lá. Falando em dificuldades, o que você estava fazendo em Londres? E por que você estava voando perto do castelo na sua forma demoníaca?
- Não era eu.
- Mas você foi o único Filho do Anjo Caído que sobrou.
- Não, existe mais um. Era ele sobrevoando Londres e agora ele está comigo.
- Então... Bom para você.
- Bom? Isso é ótimo. Eu vou ter alguém para me ajudar a chegar à Chama de Deus.
- Você já tentou encontrar isso e quase morreu. Eu nem sabia que o Vaticano tinha um exército especial.
- Mas dessa vez vai ser diferente. Estou ensinando esse rapaz a usar os poderes que temos. E quando eu terminar de treiná-lo, nenhum anjo poderá nos deter.
- E por que esse... Rapaz, como você disse, aceitaria ajudar você nisso?
- O ódio é um grande motivador. E no fim ele quer o mesmo que eu.
- Você realmente acha que isso vai dar certo? Pelo que você me contou essa coisa toda de Chama de Deus é algo perigoso.
- Eu quero a minha família de volta, Morris. E esse rapaz é minha única esperança.
- Se isso der certo, pode me prometer algo?
- O que?
- Pode me fazer ser dono de um bordel?
- Por quê?
- Eu adoro mulheres.
- Vou pensar. – diz ele rindo.
- Vai aceitar o serviço?
- Sim. É um serviço de emergência, certo?
- Sim.
- Então diga ao cliente que irei conversar com ele pessoalmente em duas horas.
- Ele vive em Hong Kong.
- Isso não vai ser problema para mim. – diz ele enquanto abre um portal – Cuide-se Morris.
- Você também.
Morris é o único amigo que Darwin teve nos últimos anos. Eles se conheceram quando Darwin salvou Morris de ser morto por cobradores de apostas, e naquele período ele estava devendo muito dinheiro. Como retribuição por lhe ter salvado, Morris decidiu apresentar Darwin a contatos que lhe ofereceriam muito dinheiro em troca de serviços. Darwin já fazia isso, mas sua rede de negócios ampliou graças a Morris, que conhece muito mais gente que ele.
Morris tem um grande respeito e gratidão por Darwin, mas às vezes pensa que o homem já ultrapassou o limite da sanidade quando eles conversam a respeito da Chama de Deus. Mas em momentos, como esse, Morris lembra que está falando com alguém que é descendente do próprio Lúcifer.
Em um milésimo de segundo, Darwin retorna para o alto da montanha, onde fica sua casa e onde está Kyle, ainda tentando aprender a voar. Uma pequena parte dele se sente mal por ter deixado o garoto viver uma experiência ruim ao ver aqueles que o acolheram, principalmente seu grande amor, se voltarem contra ele, mas foi necessário. O ódio foi o que motivou Darwin a abraçar sua natureza demoníaca e a partir em busca da Chama de Deus, e o mesmo está acontecendo agora com Kyle.
Observando o rapaz se esforçando para aprender a voar o faz quase rir, mas está sendo uma experiência interessante:
- Ainda não conseguiu? – pergunta Darwin.
- Eu não posso.
- Pode sim. Só está tendo dificuldades em se concentrar, e em achar a emoção certa.
- Pensar em algo brando só está me deixando com mais raiva.
- A princesa.
- Não só ela. Eu tentei pensar na minha mãe, mas só sinto ódio de mim mesmo por não ter conseguido salvá-la. – ele olha para o chão e em seguida grita de raiva para o céu – Como você consegue isso? – pergunta ele se virando para Darwin.
- As emoções facilitam o primeiro acesso aos nossos poderes. Depois disso é questão de saber usá-los... Na dose certa.
- Isso é tudo é uma maldita perda de tempo.
- Você pode parar de reclamar por um segundo?
- E como você quer que eu pare? Eu estou tentando, mas não consigo.
- Sabe Kyle, às vezes você só precisa de um empurrãozinho.
Ventos fortes cercam Kyle. Darwin estende a mão direita e os ventos agarram Kyle e o jogam em direção ao precipício. O rapaz grita desesperado, e Darwin apenas grita para ele impedir sua queda.
Kyle cai em queda livre. O chão se torna cada vez maior. Sua vida começa a passar diante de seus olhos, fazendo com que ele se lembre de coisas que há muito tempo estavam lacradas em seu inconsciente.
Era um dia claro. Sua mãe estava recolhendo algumas flores que havia plantado atrás da casa meses antes. Ela recolheu todas, mas uma delas caiu no chão. Kyle a pega e a dá para sua mãe, que estava montando um buquê. Ela sorri ao ver a flor e o abraça.
Alguns anos depois, noite. Está chovendo. Kyle e Celiny estão observando a chuva de dentro da sala, com a lareira acesa. Trovões gritam. A menina está assustada, mas ao mesmo tempo entusiasmada. Ela segura a mão de Kyle e ele sente seu coração bater mais forte.
Dia, agora. O chão está mais nítido e a morte chama. Parada súbita. Kyle se vê flutuando, com o próprio ar segurando-o. Ele olha para cima e usa o ar para se levitar de volta para a montanha. Ele vai aos poucos, até que decide ir para lá na mesma velocidade em que estava caindo.
Ele pousa perto de onde Darwin, dando uma leve escorregada ao colocar o pé no chão:
- Como foi?
- Libertador.
- Sempre é. Apenas mais um pouco e você ficará excelente nisso. E agora...
- Tem mais?
- Você precisa aprender mais.
- Você quase me matou! Acho que já basta por hoje.
- Eu teria impedido sua queda.
- E quando teria feito isso? Depois que eu já tivesse beijado o chão?
- Você tem que aprender a confiar em mim. Mas conte-me, o que você se lembrou?
- Minha mãe e Celiny. – diz Kyle – Mas era lembranças que eu...
- Nem se recordava mais.
- Exato.
- Que bom. E tem razão, você fez bastante coisa hoje e é melhor continuar treinando o que você aprendeu. Mas nos próximos dias você terá que aprender o restante.
- Nós iremos tentar pegar essa Chama de Deus?
- Não é pegar. Iremos ao Vaticano e entrar no portal que nos levará à Chama de Deus, mas não ainda.
- Não é por isso que eu estou aqui?
- Sim, mas tenho negócios a resolver, e você irá comigo. Considere isso como um treinamento.
- E para onde vamos?
- Primeiro nós iremos ao Grande Cassino Chinês, em Hong Kong. Há alguém lá que quer me contratar para um serviço importante. Vá se arrumar.
- Por que está falando como se fosse meu pai?
- Você está sendo o meu aprendiz, então se acostume.
No castelo, os pais de Celiny vão ao quarto dela para conversar com ela:
- Você está bem, filha? – pergunta a Grande Rainha, sentando-se ao lado de Celiny na cama.
- Eu acho que sim.
- Você nunca soube sobre ele? – pergunta o Grande Rei
- Claro que não, ele sempre pareceu normal.
- Já contatou a família real da Irlanda? – pergunta a Grande Rainha.
- Sim, já.
- A família real da Irlanda? – pergunta Celiny.
- Vamos adiantar o casamento. – responde o Grande Rei – Acho que é o melhor a ser feito, considerando o que houve.
- E quanto a Kyle, o que acontecerá com ele?
- Ele está sendo procurado, e assim que for encontrado será morto.
- Pai, não! Você não pode matá-lo!
- Ele é um demônio, Celiny! Quando existia mais deles, os Filhos do Anjo Caído fizeram inúmeras atrocidades.
- Mas o Kyle não é igual a eles.
- Como saber? Você mesma disse que ele a enfeitiçou.
- Eu menti! Eu estava assustada, pai. Por favor, não permita que matem Kyle.
- Eu não posso prometer nada. Por mais que eu tenha tido consideração por ele, Kyle se tornou uma ameaça e ele tem que ser detido. Quando eu não sei, mas agora vamos nos concentrar no casamento. Espero que isso nos traga um pouco de tranquilidade depois destes dias turbulentos.

Os Filhos do Anjo Caído - Capítulo 5: Darwin


Vinte anos depois, o homem que salvou Kyle e Celiny quando eles eram crianças está em pé diante dele. Ele estende a mão direita para ele e diz que é hora de os dois irem embora. Ele não tem para onde ir. Seu mundo acabou. Ele aperta a mão do homem, se levanta e o acompanha. Eles atravessam o portal que instantaneamente os levam para uma sofisticada sala de estar, quase que como se apenas tivessem aberto uma porta e atravessado de um cômodo para outro:
- Por favor, sente-se. – diz o homem indicando com a mão onde o sofá está.
- Onde estou?
- Minha casa. Quase isso, mas é a minha casa de qualquer forma. Sente-se, deve estar cansado depois de tudo que passou.
Kyle se senta, e o homem dá para ele roupas para se vestir:
- Obrigado. – diz Kyle.
- Por nada. Quer beber algo?
- Não. Quero saber quem você é.
- Imagino que você tenha muitas perguntas. Pode me chamar de Darwin.
- Como aquele homem, Charles Darwin?
- De certa forma. – diz ele rindo – Bom ver que você não é nenhum ignorante, Kyle.
- Como você sabe o meu nome?
- Eu senti sua presença quando nos encontramos 20 anos atrás, o que permitiu saber o seu nome.
- Como assim? Nós nunca nos vimos antes.
- Fui eu que salvei você e Celiny, não lembra?
- Mas é claro que me lembro!
- Sim. E quanto a sentir sua presença, a família tem essa habilidade.
- Família? Você é meu parente?
- Sim, bem distante, devo dizer. Somos os Filhos do Anjo Caído.
- O que?
- Anjo Caído, Lúcifer, Satanás. Nunca ouviu a respeito de nossa espécie?
- Eu... – ele então se lembra de quando Celiny mencionou a respeito dias atrás – Eu já ouvi. Mas pensei que estivessem extintos.
- Somo os últimos, na verdade. O restante está morto, incluindo sua mãe.
- O que sabe sobre minha mãe? – diz ele se levantando e encarando Darwin.
- Ela era um de nós, por isso seu pai a matou.
- Como você sabe sobre isso?
- Eu senti a presença dela, assim como senti a sua.
- E por que não a salvou? – pergunta ele em um surto de raiva, agarrando Darwin pelas roupas.
- Solte-me, Kyle.
- Por que não a salvou?
- Solte-me, agora.
- Por que não a salvou?
- Devia ter me ouvido, Kyle.
O chão começa a se tornar líquido e começa a engolir Kyle, até que se solidifica novamente, deixando a parte inferior de seu corpo submersa:
- O que você fez? – grita ele.
- Mágica. Tem que aprender a controlar seu temperamento.
- Você fez isso?
- Manipulação da realidade. Uma de nossas habilidades.
- Você podia ter usado isso para salvar a minha mãe.
- Quando eu cheguei, ela já estava morta.
- Era só ter feito... O que você fez para nos trazer aqui.
- Para abrir um portal que me leve de um lugar a outro eu tenho que saber para onde estou indo. Do contrário poderia abrir um portal para algum lugar não muito amigável. Imagine abrir um portal para escapar de um exército e acabar caindo em um vulcão. Acho que isso já aconteceu muitos anos atrás, comigo.
- Tire-me daqui!
- Está bem. Fique calmo.
Aos poucos, Kyle é erguido, até estar totalmente liberto do chão:
- Poderia agradecer.
- Obrigado. – diz Kyle, querendo dar um soco no rosto de Darwin.
- Por nada, apesar de que eu sei que esse agradecimento não foi de boa vontade. Vamos, se vista. – diz ele pegando as roupas e as jogando para Kyle – Estarei esperando você na cozinha.
Kyle se veste e vai para a cozinha. Há uma mesa com duas cadeiras, e em uma delas é onde Darwin está sentado. Ele está tomando uísque e coloca um prato de sopa de cebola no lado oposto da mesa. Ele sinaliza com a cabeça para Kyle se sentar ali e ele caminha até lá:
- Obrigado. – diz Kyle.
- Por nada. Deve estar com fome.
- Por que você está me abrigando?
- Porque eu sei o que é ficar sozinho.
- Como você conseguiu sentir a presença da minha mãe?
- Eu estava fazendo um serviço e aí senti a presença dela. Como disse, ela já estava morta quando cheguei, mas senti a sua presença. Por sorte cheguei a tempo de salvar você e a princesa. Bem corajoso de sua parte, aliás. Sendo apenas uma criança tentou salvá-la. E também foi bem corajoso e estúpido ter entrado no bar dos Foices Vermelhas.
- Como sabe disso?
- Quem você acha que te levou de volta para o castelo?
- E como sabia que eu estava lá?
- Estava por perto e senti a sua presença.
- Você disse que somos os Filhos do Anjo Caído, e disse que somos os últimos. Por que não me levou com você quando me salvou? Por que me levou de volta para o castelo e por que me trouxe aqui?
- Eu já disse por que está aqui.
- Sim, você disse que é porque sabe como é estar sozinho. Mas é muita coincidência você estar por perto três vezes.
- Você é esperto. – diz ele sorrindo – Eu estive vigiando você, esperando o momento certo para nos unirmos.
- Esperar o momento certo?
- Sim. Você foi criado ali no castelo e era amado, mas somente porque eles e você mesmo pensavam que era um rapaz comum. Mas quando a verdade viesse à tona, de que você é um demônio, isso mudaria.
- E por que você quis esperar?
- Porque houve um período em minha vida em que eu achei que a nossa herança maldita seria ignorada, mas eu estava errado. Eu poderia tê-lo levado comigo, mas eu estava em um período em que não seria um bom cuidador, todavia eu sabia que as coisas poderiam tomar outro rumo.
- Por quê?
- Por mais que você seja bom, a nossa herança maldita sempre será um empecilho. Diga-me, como foi sua vida nesses 20 anos?
- Eu fui criado no castelo. Quem cuidou de mim foi Aidan e eu permaneci trabalhando como um criado. Eu e Celiny nos apaixonamos e planejamos fugir, mas fomos pegos e um dos guardas jogou ácido em mim. E alguma coisa aconteceu e Celiny saiu correndo enquanto o pai dela ordenou que me matassem.
- Quando estamos expostos a temperaturas extremamente altas, nossa forma verdadeira é revelada.
- Um demônio com asas.
- Sim. Foi o que aconteceu quando você foi incendiado no bar e quando o ácido foi jogado em você.
- Eu me transformei no bar?
- Não se recorda?
- Não.
- Bem, quando eu o achei, você estava desmaiado e estava voltando à sua forma humana. Mas enfim... você ia fugir com a Grande Princesa? Você é realmente corajoso. Imprudente, idiota, mas corajoso.
- Ela me abandonou. Ela disse que queria ficar comigo para sempre e me abandonou.
- É o que acontece. Quando descobrem sobre nossa herança, aqueles que amamos nos abandonam. Para entender isso, é algo que você tem que passar por conta própria. Acho melhor você ir dormir. Amanhã conversaremos mais.
- Vai mesmo me deixar aqui?
- Eu passei por uma situação semelhante quando era mais jovem, mas não tive ninguém para me ajudar. Então sim, vou deixar você ficar aqui. Sinta-se em casa, já que essa será sua nova casa.
Kyle não sabe se pode confiar em Darwin. Apesar da postura gentil do homem, ele sente que há algo mais, que ele está sendo gentil por querer algo em troca. Mas no momento ele não tem muita escolha.
No dia seguinte ele acorda após ter passado a noite inteira sonhando com Celiny. Os sonhos terminaram do mesmo jeito. Celiny estava longe dele, e quando ele a alcançava, ela saia correndo, enquanto os guardas o matam. Ele se veste e vai até a sala de estar, onde Darwin está tomando chá e lendo um jornal:
- Bom dia. – diz Darwin.
- Bom dia.
- Eu até perguntaria se você dormiu bem, mas você ficou dizendo Celiny durante toda a noite, então já tenho a resposta.
- Você disse que sabia o que era estar sozinho. O que houve com você?
- Outra hora eu lhe digo.
Kyle se enfurece com a resposta de Darwin. Ele contou sobre ele, então era justo que Darwin fizesse o mesmo. Ele vai até Darwin e arranca o jornal das mãos dele:
- Me diga agora! – grita Kyle.
- Devo-lhe lembrar de que está na minha casa. Se não se comportar farei algo pior do que fazer o chão te engolir.
- Não, não vai.
- Uau! – diz ele dando um sorriso cínico – Tanta certeza! Por que acha que não farei nada?
- Você podia ter me levado com você quando eu era criança.
- E eu expliquei por que não o fiz.
- Mas depois disso você me tirou do bar e veio me buscar ontem. Não está fazendo isso simplesmente porque quer me ajudar. Você quer algo de mim, não é?
- Ou talvez eu esteja sendo gentil com um membro da família.
- Você não é a minha família! Conte-me agora do que se trata tudo isto!
Darwin apenas encara os olhos raivosos de Kyle e começa a ter um ataque de risos:
- Qual a graça? – pergunta Kyle querendo mais do que nunca socar Darwin.
- Você é engraçado. Tentando se mostrar como alguém forte, mas ainda continua frágil.
- Eu juro que...
- Você não vai fazer nada. Até porque em um duelo entre nós dois eu mataria você facilmente. Pois bem, você quer saber o que houve comigo? Eu lhe direi. Sente-se. – diz Darwin sinalizando com a mão para que Kyle se sente no sofá. Assim que Kyle o faz ele o olha nos olhos e começa a falar – Eu nasci em 1901. Eu e minha família vivíamos bem. Herdei minhas habilidades através da minha mãe, como você. Ela nunca concordou com que os nossos ancestrais fizeram, de se aliar aos Foices Vermelhas para tomar o poder, e sonhava em ver a família usar os poderes para o bem. Ela me ensinou muito bem a como usar os meus poderes, e ela me inspirou a estudar Medicina. Durante a minha estadia na faculdade me apaixonei perdidamente pela minha colega de sala, Elizabeth. Depois de concluirmos a faculdade, nos casamos e fomos viver em um vilarejo, nas florestas, onde poderíamos ajudar mais pessoas. Nós tivemos um filho e quatro depois ela estava grávida do segundo. Um dia houve um incêndio na casa de um dos moradores. O filho da família havia ficado preso, e eu entrei na casa em chamas e consegui salvá-lo, mas nisso revelei a todos quem eu era de verdade. Como agradecimento por eu ter salvado o rapazinho, mataram minha família. Enfiaram uma faca na barriga da minha esposa e a degolaram, decapitaram o meu filho, enforcaram minha mãe. Eles tentaram me matar, mas eu matei todos ali. Mas o que mais doeu não foi perdê-los, mas ver nos olhos dela o horror em ver minha verdadeira forma, assim como Celiny ao ver a sua. Depois disso vaguei por aí fazendo alguns serviços. Para alguns nossos poderes são bem respeitados, principalmente para piratas.
- Não há algum feitiço que possa trazê-los de volta?
- Não existe nenhum feitiço capaz de fazer isso. Eu tenho procurado por décadas uma forma de trazer minha família de volta, até quase consegui certa vez, mas os resultados não foram bons.
- O que houve?
- Eles voltaram, mas não eram mais eles. Eram apenas cascas vazias e podres.
- Eu sinto muito.
- Não sinta. Porque eu finalmente achei uma forma de trazê-los de volta, de verdade. Você estava certo, eu preciso sim de você para algo. Já ouviu falar sobre a Chama de Deus?
- Não.
- Imagino. Poucas pessoas sabem a respeito.
- Mas o que é?
- Você pode se referir a ela como a teia da realidade. Quando Deus criou o céu e a Terra, quando ele criou o universo, o nosso universo não foi apenas o único a ser criado. Ele criou outras Terras, incontáveis Terras. Pense na Chama de Deus como sendo o que mantém estas incontáveis Terras unidas. Como eu disse, poucas pessoas sabem disso, mas até onde se sabe Cristo revelou aos seus apóstolos, mas esta revelação nunca chegou ao ouvido de outros. O Vaticano sabe, mas duvido que algum dia eles irão revelar sobre isso. Apesar poucas pessoas saberem sobre a Chama de Deus, um ancestral nosso descobriu sobre a chama e que aquele que tiver acesso a ela pode moldar não só a realidade, mas todo o multiverso ao seu bel prazer. Pode recriá-lo.
- Mas como ele descobriu isso?
- Ninguém sabe ao acerto, o que se sabe é apenas que ele descobriu. De acordo com ele, há dois portais. Um está em Israel, mas não é possível acessá-lo porque ele tem uma espécie de barreira invisível bem mortal, mas há outro no Vaticano, abaixo do Castelo de Santo Ângelo. Mas alguém como nós não pode ir lá já que eles têm formas de barrar um Filho do Anjo Caído, que mesmo que não sejam tão mortíferas quanto a barreira invisível em Israel, bem... ainda são mortíferas.
- Então não há como ter acesso a isso.
- Não. Pelo menos não sozinho. – diz Darwin sorrindo.
Vendo o sorriso de Darwin, Kyle entende o que ele quer com tudo isso:
- Você quer que eu o ajude.
- Exato. Este é o momento perfeito. Nós dois juntos podemos lutar contra o que estiver lá e atravessar o portal que nos levará para a Chama de Deus.
- Onde é a saída?
- Saída de onde?
- Daqui. Já me cansei de ficar ouvindo você.
- Não vê a oportunidade que temos?
- Você quer trazer sua família de volta com base em um mito.
- É real.
- E como sabe?
- Eu estive lá.
- Quando?
- Muitos anos atrás, antes de ter salvado você.
- E o portal que teoricamente é mais fácil de entrar está lá no Vaticano?
- Sim. E eles têm armas poderosas para lidar com pessoas como nós. Quando eu os enfrentei pensei que fosse morrer. Sobrevivi por pura sorte.
- Ainda duvido de tudo isso.
- Pense bem, reconstruir o multiverso nos dará a capacidade para reconstruir nossas vidas. Podemos apagar o mal que nossos ancestrais fizeram, eu posso ter a minha família de volta e você pode ter a sua mãe de volta. Pode ter Celiny ao seu lado.
Kyle pensa no que Darwin acabou de dizer. Tudo o que ele acabou de dizer não parece passar de puro delírio, mas por um lado não há nada a perder em se juntar a ele nessa ideia louca. E se for verdade, ele pode mudar tudo o que de ruim aconteceu em sua vida. Impedir que o seu pai mate sua mãe e ter uma vida feliz com Celiny:
- Eu aceito ajudar você.
- Ótimo. – diz Darwin sorridente.
- O que você precisa que eu faça?
- Primeiro você tem que dominar suas habilidades, e eu vou ajudar você a fazer isso.
- Então eu vou poder fazer o chão engolir você? Isso seria divertido.
- Você vai poder fazer muito mais que isso, Kyle.
Darwin leva Kyle para o lado externo de sua casa, e o rapaz se surpreende ao saber que a casa de Darwin fica em uma montanha:
- Por que você mora aqui?
- Porque ninguém pensaria em me procurar aqui. Agora vamos iniciar o seu treinamento.
- Está bem.
- Vamos começar... – Darwin enfia a mão esquerda no bolso esquerdo da calça e pega algo – Com isso aqui. – diz ele após retirar do bolso um isqueiro.
- Mas eu não fumo.
- Não é para fumar. Temos o poder para controlar elementos, mas para conseguir controlar cada elemento é necessária uma emoção diferente. Você está com raiva, sempre esteve. Então nada mais perfeito do que você aprender primeiro a controlar o fogo.
-Isso vai realmente funcionar?
- Apenas tente. – ele acende o isqueiro – Foque-se no fogo. Seja o fogo. O fogo é uma extensão de você, é a manifestação de toda a sua raiva.
Para Kyle, isso tudo não passa de uma grande bobagem, mas ele decide tentar seguir conforme o que Darwin disse. Ele se concentra no fogo, pensa nele como se fosse um membro de seu corpo. Ele continua se concentrando. A memória de sua mãe sendo morta surge. Ele quase consegue sentir os sons da cabeça dela sendo esmagada pelo machado do pai dele. Ele sente seus punhos cerrarem e o fogo no isqueiro começa a aumentar:
- Isso. – diz Darwin – Continue, está indo bem.
A memória de Celiny o abandonando vem em seguida, e o fogo se expande. Kyle toca nele com a mão esquerda e o faz se dividir em dois, manuseando a outra metade com a mão direita. O fogo envolve as mãos dele, fazendo com que elas se tornem mãos demoníacas flamejantes.
Diferente do que ocorreu anteriormente, Kyle não está sentindo dor, ou se está sentindo, nem está dando à mínima. Está encantado por ver as chamas alaranjadas dançarem em suas mãos. Ele as faz aumentar e as joga em direção ao céu:
- E então? – pergunta Darwin.
- Incrível.
- Com o fogo você se deu bem. Agora... – ele olha ao redor e depois volta a olhar para Kyle – Vamos ver como você se sai com o ar.
- O ar? Para que?
- É assim que conseguimos voar.
- Eu não gosto de alturas.
- Acredite em mim, você vai perder o medo depois disso. Agora se concentre no que está ao seu redor. E não sinta raiva, procure pensar em algo mais brando.
- Isso vai ser difícil.
- Para um rapaz como você não será impossível. Apenas tente. E enquanto você treina eu vou resolver um assunto pessoal.
- Mas espere...
- Apenas vá tentando.