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domingo, 25 de fevereiro de 2018

Os Filhos do Anjo Caído - Capítulo 6: Morris


Darwin abre um portal que o leva para as docas. Lá ele se encontra com Morris, um homem de baixa estatura e de rosto simpático. Toda semana eles se encontram aqui por ser um local tranquilo e é aqui onde Morris passa as propostas de serviços para Darwin. As pessoas que costumam solicitar os serviços dele são tanto homens de negócio que querem roubar algum segredo de outros empresários para obter mais lucro quanto piratas que querem alguém para auxiliá-los caso se deparem com as autoridades ou para facilitar a captura de alguma carga preciosa, especialmente se a carga estiver em um lugar hostil:
- Morris, como vai? – pergunta Darwin dando um forte aperto de mão em Morris.
- O de sempre. – diz Morris enquanto acende um cigarro – E com um servicinho novo para você.
- É algum fácil?
- Você sabe que para alguém como você não existe serviço fácil.
- Claro que não.
- Sr. Zhang, dono do Grande Cassino Chinês.
- Já ouvi falar. Para o que é?
- Um navio pirata estava contrabandeando uma carga valiosa contendo diamantes, mas no percurso tiveram um grande imprevisto e a carga se perdeu.
- Eles querem que eu recupere a carga.
- Sim.
- Bem, então não vai ser algo difícil.
- Eles perderam perto da Cidade Draconiana. – diz Morris fazendo uma expressão séria.
Darwin sente um frio na barriga só de ouvir o nome do lugar. A Cidade Draconiana é uma ilha ocupada por híbridos de humanos e dragões, e quem é apenas humano não costuma sair vivo de lá:
- O pagamento é grande?
- Muito.
- Então vale a pena. – diz Darwin se acalmando e olhando para Morris com um largo sorriso.
- Mas até mesmo alguém como você pode ter dificuldades lá. Falando em dificuldades, o que você estava fazendo em Londres? E por que você estava voando perto do castelo na sua forma demoníaca?
- Não era eu.
- Mas você foi o único Filho do Anjo Caído que sobrou.
- Não, existe mais um. Era ele sobrevoando Londres e agora ele está comigo.
- Então... Bom para você.
- Bom? Isso é ótimo. Eu vou ter alguém para me ajudar a chegar à Chama de Deus.
- Você já tentou encontrar isso e quase morreu. Eu nem sabia que o Vaticano tinha um exército especial.
- Mas dessa vez vai ser diferente. Estou ensinando esse rapaz a usar os poderes que temos. E quando eu terminar de treiná-lo, nenhum anjo poderá nos deter.
- E por que esse... Rapaz, como você disse, aceitaria ajudar você nisso?
- O ódio é um grande motivador. E no fim ele quer o mesmo que eu.
- Você realmente acha que isso vai dar certo? Pelo que você me contou essa coisa toda de Chama de Deus é algo perigoso.
- Eu quero a minha família de volta, Morris. E esse rapaz é minha única esperança.
- Se isso der certo, pode me prometer algo?
- O que?
- Pode me fazer ser dono de um bordel?
- Por quê?
- Eu adoro mulheres.
- Vou pensar. – diz ele rindo.
- Vai aceitar o serviço?
- Sim. É um serviço de emergência, certo?
- Sim.
- Então diga ao cliente que irei conversar com ele pessoalmente em duas horas.
- Ele vive em Hong Kong.
- Isso não vai ser problema para mim. – diz ele enquanto abre um portal – Cuide-se Morris.
- Você também.
Morris é o único amigo que Darwin teve nos últimos anos. Eles se conheceram quando Darwin salvou Morris de ser morto por cobradores de apostas, e naquele período ele estava devendo muito dinheiro. Como retribuição por lhe ter salvado, Morris decidiu apresentar Darwin a contatos que lhe ofereceriam muito dinheiro em troca de serviços. Darwin já fazia isso, mas sua rede de negócios ampliou graças a Morris, que conhece muito mais gente que ele.
Morris tem um grande respeito e gratidão por Darwin, mas às vezes pensa que o homem já ultrapassou o limite da sanidade quando eles conversam a respeito da Chama de Deus. Mas em momentos, como esse, Morris lembra que está falando com alguém que é descendente do próprio Lúcifer.
Em um milésimo de segundo, Darwin retorna para o alto da montanha, onde fica sua casa e onde está Kyle, ainda tentando aprender a voar. Uma pequena parte dele se sente mal por ter deixado o garoto viver uma experiência ruim ao ver aqueles que o acolheram, principalmente seu grande amor, se voltarem contra ele, mas foi necessário. O ódio foi o que motivou Darwin a abraçar sua natureza demoníaca e a partir em busca da Chama de Deus, e o mesmo está acontecendo agora com Kyle.
Observando o rapaz se esforçando para aprender a voar o faz quase rir, mas está sendo uma experiência interessante:
- Ainda não conseguiu? – pergunta Darwin.
- Eu não posso.
- Pode sim. Só está tendo dificuldades em se concentrar, e em achar a emoção certa.
- Pensar em algo brando só está me deixando com mais raiva.
- A princesa.
- Não só ela. Eu tentei pensar na minha mãe, mas só sinto ódio de mim mesmo por não ter conseguido salvá-la. – ele olha para o chão e em seguida grita de raiva para o céu – Como você consegue isso? – pergunta ele se virando para Darwin.
- As emoções facilitam o primeiro acesso aos nossos poderes. Depois disso é questão de saber usá-los... Na dose certa.
- Isso é tudo é uma maldita perda de tempo.
- Você pode parar de reclamar por um segundo?
- E como você quer que eu pare? Eu estou tentando, mas não consigo.
- Sabe Kyle, às vezes você só precisa de um empurrãozinho.
Ventos fortes cercam Kyle. Darwin estende a mão direita e os ventos agarram Kyle e o jogam em direção ao precipício. O rapaz grita desesperado, e Darwin apenas grita para ele impedir sua queda.
Kyle cai em queda livre. O chão se torna cada vez maior. Sua vida começa a passar diante de seus olhos, fazendo com que ele se lembre de coisas que há muito tempo estavam lacradas em seu inconsciente.
Era um dia claro. Sua mãe estava recolhendo algumas flores que havia plantado atrás da casa meses antes. Ela recolheu todas, mas uma delas caiu no chão. Kyle a pega e a dá para sua mãe, que estava montando um buquê. Ela sorri ao ver a flor e o abraça.
Alguns anos depois, noite. Está chovendo. Kyle e Celiny estão observando a chuva de dentro da sala, com a lareira acesa. Trovões gritam. A menina está assustada, mas ao mesmo tempo entusiasmada. Ela segura a mão de Kyle e ele sente seu coração bater mais forte.
Dia, agora. O chão está mais nítido e a morte chama. Parada súbita. Kyle se vê flutuando, com o próprio ar segurando-o. Ele olha para cima e usa o ar para se levitar de volta para a montanha. Ele vai aos poucos, até que decide ir para lá na mesma velocidade em que estava caindo.
Ele pousa perto de onde Darwin, dando uma leve escorregada ao colocar o pé no chão:
- Como foi?
- Libertador.
- Sempre é. Apenas mais um pouco e você ficará excelente nisso. E agora...
- Tem mais?
- Você precisa aprender mais.
- Você quase me matou! Acho que já basta por hoje.
- Eu teria impedido sua queda.
- E quando teria feito isso? Depois que eu já tivesse beijado o chão?
- Você tem que aprender a confiar em mim. Mas conte-me, o que você se lembrou?
- Minha mãe e Celiny. – diz Kyle – Mas era lembranças que eu...
- Nem se recordava mais.
- Exato.
- Que bom. E tem razão, você fez bastante coisa hoje e é melhor continuar treinando o que você aprendeu. Mas nos próximos dias você terá que aprender o restante.
- Nós iremos tentar pegar essa Chama de Deus?
- Não é pegar. Iremos ao Vaticano e entrar no portal que nos levará à Chama de Deus, mas não ainda.
- Não é por isso que eu estou aqui?
- Sim, mas tenho negócios a resolver, e você irá comigo. Considere isso como um treinamento.
- E para onde vamos?
- Primeiro nós iremos ao Grande Cassino Chinês, em Hong Kong. Há alguém lá que quer me contratar para um serviço importante. Vá se arrumar.
- Por que está falando como se fosse meu pai?
- Você está sendo o meu aprendiz, então se acostume.
No castelo, os pais de Celiny vão ao quarto dela para conversar com ela:
- Você está bem, filha? – pergunta a Grande Rainha, sentando-se ao lado de Celiny na cama.
- Eu acho que sim.
- Você nunca soube sobre ele? – pergunta o Grande Rei
- Claro que não, ele sempre pareceu normal.
- Já contatou a família real da Irlanda? – pergunta a Grande Rainha.
- Sim, já.
- A família real da Irlanda? – pergunta Celiny.
- Vamos adiantar o casamento. – responde o Grande Rei – Acho que é o melhor a ser feito, considerando o que houve.
- E quanto a Kyle, o que acontecerá com ele?
- Ele está sendo procurado, e assim que for encontrado será morto.
- Pai, não! Você não pode matá-lo!
- Ele é um demônio, Celiny! Quando existia mais deles, os Filhos do Anjo Caído fizeram inúmeras atrocidades.
- Mas o Kyle não é igual a eles.
- Como saber? Você mesma disse que ele a enfeitiçou.
- Eu menti! Eu estava assustada, pai. Por favor, não permita que matem Kyle.
- Eu não posso prometer nada. Por mais que eu tenha tido consideração por ele, Kyle se tornou uma ameaça e ele tem que ser detido. Quando eu não sei, mas agora vamos nos concentrar no casamento. Espero que isso nos traga um pouco de tranquilidade depois destes dias turbulentos.

Os Filhos do Anjo Caído - Capítulo 5: Darwin


Vinte anos depois, o homem que salvou Kyle e Celiny quando eles eram crianças está em pé diante dele. Ele estende a mão direita para ele e diz que é hora de os dois irem embora. Ele não tem para onde ir. Seu mundo acabou. Ele aperta a mão do homem, se levanta e o acompanha. Eles atravessam o portal que instantaneamente os levam para uma sofisticada sala de estar, quase que como se apenas tivessem aberto uma porta e atravessado de um cômodo para outro:
- Por favor, sente-se. – diz o homem indicando com a mão onde o sofá está.
- Onde estou?
- Minha casa. Quase isso, mas é a minha casa de qualquer forma. Sente-se, deve estar cansado depois de tudo que passou.
Kyle se senta, e o homem dá para ele roupas para se vestir:
- Obrigado. – diz Kyle.
- Por nada. Quer beber algo?
- Não. Quero saber quem você é.
- Imagino que você tenha muitas perguntas. Pode me chamar de Darwin.
- Como aquele homem, Charles Darwin?
- De certa forma. – diz ele rindo – Bom ver que você não é nenhum ignorante, Kyle.
- Como você sabe o meu nome?
- Eu senti sua presença quando nos encontramos 20 anos atrás, o que permitiu saber o seu nome.
- Como assim? Nós nunca nos vimos antes.
- Fui eu que salvei você e Celiny, não lembra?
- Mas é claro que me lembro!
- Sim. E quanto a sentir sua presença, a família tem essa habilidade.
- Família? Você é meu parente?
- Sim, bem distante, devo dizer. Somos os Filhos do Anjo Caído.
- O que?
- Anjo Caído, Lúcifer, Satanás. Nunca ouviu a respeito de nossa espécie?
- Eu... – ele então se lembra de quando Celiny mencionou a respeito dias atrás – Eu já ouvi. Mas pensei que estivessem extintos.
- Somo os últimos, na verdade. O restante está morto, incluindo sua mãe.
- O que sabe sobre minha mãe? – diz ele se levantando e encarando Darwin.
- Ela era um de nós, por isso seu pai a matou.
- Como você sabe sobre isso?
- Eu senti a presença dela, assim como senti a sua.
- E por que não a salvou? – pergunta ele em um surto de raiva, agarrando Darwin pelas roupas.
- Solte-me, Kyle.
- Por que não a salvou?
- Solte-me, agora.
- Por que não a salvou?
- Devia ter me ouvido, Kyle.
O chão começa a se tornar líquido e começa a engolir Kyle, até que se solidifica novamente, deixando a parte inferior de seu corpo submersa:
- O que você fez? – grita ele.
- Mágica. Tem que aprender a controlar seu temperamento.
- Você fez isso?
- Manipulação da realidade. Uma de nossas habilidades.
- Você podia ter usado isso para salvar a minha mãe.
- Quando eu cheguei, ela já estava morta.
- Era só ter feito... O que você fez para nos trazer aqui.
- Para abrir um portal que me leve de um lugar a outro eu tenho que saber para onde estou indo. Do contrário poderia abrir um portal para algum lugar não muito amigável. Imagine abrir um portal para escapar de um exército e acabar caindo em um vulcão. Acho que isso já aconteceu muitos anos atrás, comigo.
- Tire-me daqui!
- Está bem. Fique calmo.
Aos poucos, Kyle é erguido, até estar totalmente liberto do chão:
- Poderia agradecer.
- Obrigado. – diz Kyle, querendo dar um soco no rosto de Darwin.
- Por nada, apesar de que eu sei que esse agradecimento não foi de boa vontade. Vamos, se vista. – diz ele pegando as roupas e as jogando para Kyle – Estarei esperando você na cozinha.
Kyle se veste e vai para a cozinha. Há uma mesa com duas cadeiras, e em uma delas é onde Darwin está sentado. Ele está tomando uísque e coloca um prato de sopa de cebola no lado oposto da mesa. Ele sinaliza com a cabeça para Kyle se sentar ali e ele caminha até lá:
- Obrigado. – diz Kyle.
- Por nada. Deve estar com fome.
- Por que você está me abrigando?
- Porque eu sei o que é ficar sozinho.
- Como você conseguiu sentir a presença da minha mãe?
- Eu estava fazendo um serviço e aí senti a presença dela. Como disse, ela já estava morta quando cheguei, mas senti a sua presença. Por sorte cheguei a tempo de salvar você e a princesa. Bem corajoso de sua parte, aliás. Sendo apenas uma criança tentou salvá-la. E também foi bem corajoso e estúpido ter entrado no bar dos Foices Vermelhas.
- Como sabe disso?
- Quem você acha que te levou de volta para o castelo?
- E como sabia que eu estava lá?
- Estava por perto e senti a sua presença.
- Você disse que somos os Filhos do Anjo Caído, e disse que somos os últimos. Por que não me levou com você quando me salvou? Por que me levou de volta para o castelo e por que me trouxe aqui?
- Eu já disse por que está aqui.
- Sim, você disse que é porque sabe como é estar sozinho. Mas é muita coincidência você estar por perto três vezes.
- Você é esperto. – diz ele sorrindo – Eu estive vigiando você, esperando o momento certo para nos unirmos.
- Esperar o momento certo?
- Sim. Você foi criado ali no castelo e era amado, mas somente porque eles e você mesmo pensavam que era um rapaz comum. Mas quando a verdade viesse à tona, de que você é um demônio, isso mudaria.
- E por que você quis esperar?
- Porque houve um período em minha vida em que eu achei que a nossa herança maldita seria ignorada, mas eu estava errado. Eu poderia tê-lo levado comigo, mas eu estava em um período em que não seria um bom cuidador, todavia eu sabia que as coisas poderiam tomar outro rumo.
- Por quê?
- Por mais que você seja bom, a nossa herança maldita sempre será um empecilho. Diga-me, como foi sua vida nesses 20 anos?
- Eu fui criado no castelo. Quem cuidou de mim foi Aidan e eu permaneci trabalhando como um criado. Eu e Celiny nos apaixonamos e planejamos fugir, mas fomos pegos e um dos guardas jogou ácido em mim. E alguma coisa aconteceu e Celiny saiu correndo enquanto o pai dela ordenou que me matassem.
- Quando estamos expostos a temperaturas extremamente altas, nossa forma verdadeira é revelada.
- Um demônio com asas.
- Sim. Foi o que aconteceu quando você foi incendiado no bar e quando o ácido foi jogado em você.
- Eu me transformei no bar?
- Não se recorda?
- Não.
- Bem, quando eu o achei, você estava desmaiado e estava voltando à sua forma humana. Mas enfim... você ia fugir com a Grande Princesa? Você é realmente corajoso. Imprudente, idiota, mas corajoso.
- Ela me abandonou. Ela disse que queria ficar comigo para sempre e me abandonou.
- É o que acontece. Quando descobrem sobre nossa herança, aqueles que amamos nos abandonam. Para entender isso, é algo que você tem que passar por conta própria. Acho melhor você ir dormir. Amanhã conversaremos mais.
- Vai mesmo me deixar aqui?
- Eu passei por uma situação semelhante quando era mais jovem, mas não tive ninguém para me ajudar. Então sim, vou deixar você ficar aqui. Sinta-se em casa, já que essa será sua nova casa.
Kyle não sabe se pode confiar em Darwin. Apesar da postura gentil do homem, ele sente que há algo mais, que ele está sendo gentil por querer algo em troca. Mas no momento ele não tem muita escolha.
No dia seguinte ele acorda após ter passado a noite inteira sonhando com Celiny. Os sonhos terminaram do mesmo jeito. Celiny estava longe dele, e quando ele a alcançava, ela saia correndo, enquanto os guardas o matam. Ele se veste e vai até a sala de estar, onde Darwin está tomando chá e lendo um jornal:
- Bom dia. – diz Darwin.
- Bom dia.
- Eu até perguntaria se você dormiu bem, mas você ficou dizendo Celiny durante toda a noite, então já tenho a resposta.
- Você disse que sabia o que era estar sozinho. O que houve com você?
- Outra hora eu lhe digo.
Kyle se enfurece com a resposta de Darwin. Ele contou sobre ele, então era justo que Darwin fizesse o mesmo. Ele vai até Darwin e arranca o jornal das mãos dele:
- Me diga agora! – grita Kyle.
- Devo-lhe lembrar de que está na minha casa. Se não se comportar farei algo pior do que fazer o chão te engolir.
- Não, não vai.
- Uau! – diz ele dando um sorriso cínico – Tanta certeza! Por que acha que não farei nada?
- Você podia ter me levado com você quando eu era criança.
- E eu expliquei por que não o fiz.
- Mas depois disso você me tirou do bar e veio me buscar ontem. Não está fazendo isso simplesmente porque quer me ajudar. Você quer algo de mim, não é?
- Ou talvez eu esteja sendo gentil com um membro da família.
- Você não é a minha família! Conte-me agora do que se trata tudo isto!
Darwin apenas encara os olhos raivosos de Kyle e começa a ter um ataque de risos:
- Qual a graça? – pergunta Kyle querendo mais do que nunca socar Darwin.
- Você é engraçado. Tentando se mostrar como alguém forte, mas ainda continua frágil.
- Eu juro que...
- Você não vai fazer nada. Até porque em um duelo entre nós dois eu mataria você facilmente. Pois bem, você quer saber o que houve comigo? Eu lhe direi. Sente-se. – diz Darwin sinalizando com a mão para que Kyle se sente no sofá. Assim que Kyle o faz ele o olha nos olhos e começa a falar – Eu nasci em 1901. Eu e minha família vivíamos bem. Herdei minhas habilidades através da minha mãe, como você. Ela nunca concordou com que os nossos ancestrais fizeram, de se aliar aos Foices Vermelhas para tomar o poder, e sonhava em ver a família usar os poderes para o bem. Ela me ensinou muito bem a como usar os meus poderes, e ela me inspirou a estudar Medicina. Durante a minha estadia na faculdade me apaixonei perdidamente pela minha colega de sala, Elizabeth. Depois de concluirmos a faculdade, nos casamos e fomos viver em um vilarejo, nas florestas, onde poderíamos ajudar mais pessoas. Nós tivemos um filho e quatro depois ela estava grávida do segundo. Um dia houve um incêndio na casa de um dos moradores. O filho da família havia ficado preso, e eu entrei na casa em chamas e consegui salvá-lo, mas nisso revelei a todos quem eu era de verdade. Como agradecimento por eu ter salvado o rapazinho, mataram minha família. Enfiaram uma faca na barriga da minha esposa e a degolaram, decapitaram o meu filho, enforcaram minha mãe. Eles tentaram me matar, mas eu matei todos ali. Mas o que mais doeu não foi perdê-los, mas ver nos olhos dela o horror em ver minha verdadeira forma, assim como Celiny ao ver a sua. Depois disso vaguei por aí fazendo alguns serviços. Para alguns nossos poderes são bem respeitados, principalmente para piratas.
- Não há algum feitiço que possa trazê-los de volta?
- Não existe nenhum feitiço capaz de fazer isso. Eu tenho procurado por décadas uma forma de trazer minha família de volta, até quase consegui certa vez, mas os resultados não foram bons.
- O que houve?
- Eles voltaram, mas não eram mais eles. Eram apenas cascas vazias e podres.
- Eu sinto muito.
- Não sinta. Porque eu finalmente achei uma forma de trazê-los de volta, de verdade. Você estava certo, eu preciso sim de você para algo. Já ouviu falar sobre a Chama de Deus?
- Não.
- Imagino. Poucas pessoas sabem a respeito.
- Mas o que é?
- Você pode se referir a ela como a teia da realidade. Quando Deus criou o céu e a Terra, quando ele criou o universo, o nosso universo não foi apenas o único a ser criado. Ele criou outras Terras, incontáveis Terras. Pense na Chama de Deus como sendo o que mantém estas incontáveis Terras unidas. Como eu disse, poucas pessoas sabem disso, mas até onde se sabe Cristo revelou aos seus apóstolos, mas esta revelação nunca chegou ao ouvido de outros. O Vaticano sabe, mas duvido que algum dia eles irão revelar sobre isso. Apesar poucas pessoas saberem sobre a Chama de Deus, um ancestral nosso descobriu sobre a chama e que aquele que tiver acesso a ela pode moldar não só a realidade, mas todo o multiverso ao seu bel prazer. Pode recriá-lo.
- Mas como ele descobriu isso?
- Ninguém sabe ao acerto, o que se sabe é apenas que ele descobriu. De acordo com ele, há dois portais. Um está em Israel, mas não é possível acessá-lo porque ele tem uma espécie de barreira invisível bem mortal, mas há outro no Vaticano, abaixo do Castelo de Santo Ângelo. Mas alguém como nós não pode ir lá já que eles têm formas de barrar um Filho do Anjo Caído, que mesmo que não sejam tão mortíferas quanto a barreira invisível em Israel, bem... ainda são mortíferas.
- Então não há como ter acesso a isso.
- Não. Pelo menos não sozinho. – diz Darwin sorrindo.
Vendo o sorriso de Darwin, Kyle entende o que ele quer com tudo isso:
- Você quer que eu o ajude.
- Exato. Este é o momento perfeito. Nós dois juntos podemos lutar contra o que estiver lá e atravessar o portal que nos levará para a Chama de Deus.
- Onde é a saída?
- Saída de onde?
- Daqui. Já me cansei de ficar ouvindo você.
- Não vê a oportunidade que temos?
- Você quer trazer sua família de volta com base em um mito.
- É real.
- E como sabe?
- Eu estive lá.
- Quando?
- Muitos anos atrás, antes de ter salvado você.
- E o portal que teoricamente é mais fácil de entrar está lá no Vaticano?
- Sim. E eles têm armas poderosas para lidar com pessoas como nós. Quando eu os enfrentei pensei que fosse morrer. Sobrevivi por pura sorte.
- Ainda duvido de tudo isso.
- Pense bem, reconstruir o multiverso nos dará a capacidade para reconstruir nossas vidas. Podemos apagar o mal que nossos ancestrais fizeram, eu posso ter a minha família de volta e você pode ter a sua mãe de volta. Pode ter Celiny ao seu lado.
Kyle pensa no que Darwin acabou de dizer. Tudo o que ele acabou de dizer não parece passar de puro delírio, mas por um lado não há nada a perder em se juntar a ele nessa ideia louca. E se for verdade, ele pode mudar tudo o que de ruim aconteceu em sua vida. Impedir que o seu pai mate sua mãe e ter uma vida feliz com Celiny:
- Eu aceito ajudar você.
- Ótimo. – diz Darwin sorridente.
- O que você precisa que eu faça?
- Primeiro você tem que dominar suas habilidades, e eu vou ajudar você a fazer isso.
- Então eu vou poder fazer o chão engolir você? Isso seria divertido.
- Você vai poder fazer muito mais que isso, Kyle.
Darwin leva Kyle para o lado externo de sua casa, e o rapaz se surpreende ao saber que a casa de Darwin fica em uma montanha:
- Por que você mora aqui?
- Porque ninguém pensaria em me procurar aqui. Agora vamos iniciar o seu treinamento.
- Está bem.
- Vamos começar... – Darwin enfia a mão esquerda no bolso esquerdo da calça e pega algo – Com isso aqui. – diz ele após retirar do bolso um isqueiro.
- Mas eu não fumo.
- Não é para fumar. Temos o poder para controlar elementos, mas para conseguir controlar cada elemento é necessária uma emoção diferente. Você está com raiva, sempre esteve. Então nada mais perfeito do que você aprender primeiro a controlar o fogo.
-Isso vai realmente funcionar?
- Apenas tente. – ele acende o isqueiro – Foque-se no fogo. Seja o fogo. O fogo é uma extensão de você, é a manifestação de toda a sua raiva.
Para Kyle, isso tudo não passa de uma grande bobagem, mas ele decide tentar seguir conforme o que Darwin disse. Ele se concentra no fogo, pensa nele como se fosse um membro de seu corpo. Ele continua se concentrando. A memória de sua mãe sendo morta surge. Ele quase consegue sentir os sons da cabeça dela sendo esmagada pelo machado do pai dele. Ele sente seus punhos cerrarem e o fogo no isqueiro começa a aumentar:
- Isso. – diz Darwin – Continue, está indo bem.
A memória de Celiny o abandonando vem em seguida, e o fogo se expande. Kyle toca nele com a mão esquerda e o faz se dividir em dois, manuseando a outra metade com a mão direita. O fogo envolve as mãos dele, fazendo com que elas se tornem mãos demoníacas flamejantes.
Diferente do que ocorreu anteriormente, Kyle não está sentindo dor, ou se está sentindo, nem está dando à mínima. Está encantado por ver as chamas alaranjadas dançarem em suas mãos. Ele as faz aumentar e as joga em direção ao céu:
- E então? – pergunta Darwin.
- Incrível.
- Com o fogo você se deu bem. Agora... – ele olha ao redor e depois volta a olhar para Kyle – Vamos ver como você se sai com o ar.
- O ar? Para que?
- É assim que conseguimos voar.
- Eu não gosto de alturas.
- Acredite em mim, você vai perder o medo depois disso. Agora se concentre no que está ao seu redor. E não sinta raiva, procure pensar em algo mais brando.
- Isso vai ser difícil.
- Para um rapaz como você não será impossível. Apenas tente. E enquanto você treina eu vou resolver um assunto pessoal.
- Mas espere...
- Apenas vá tentando.

sábado, 24 de fevereiro de 2018

Os Filhos do Anjo Caído - Capítulo 4: Amor consumado


No dia seguinte, Kyle está aparando os arbustos e Celiny vem falar com ele:
- Oi. – diz ela.
- Oi. Você está bem?
- Bem... Estou viva. – diz ela rindo.
- É bom ver você sorrindo.
- Não gosto de me sentir triste, então apenas rio, mesmo quando o que eu queria era chorar. Eu senti isso ontem no jantar.
- Foi tão ruim assim?
- A família real irlandesa é bem cordial, mas eu não quero ter que passar a minha vida com alguém que eu não ame.
- Mas como o príncipe é? Ele foi respeitoso com você ou...?
- Não, ele foi respeitoso comigo. Disse que entendia a pressão que estou sentindo.
- Então ao menos ele é compreensivo.
- Sim, mas... – ela acaricia o rosto dele – Não é ele quem eu amo.
Kyle sente seu coração acelerar. Eles se aproximam um do outro e ele a agarra aproxima seus lábios do dela, mas hesita. Ele sabe que não pode fazer isso, sabe que não pode tê-la. Ela percebe a hesitação dele e joga os seus lábios nos lábios dele. Ele fica estático no início, mas aos poucos a agarra e retribui o beijo. Ele sabe que não pode tê-la e ela sabe que não pode tê-lo, mas eles já têm o coração um do outro.
O casal é interrompido pela Grande Rainha. Ela grita com Celiny e a manda se retirar:
- Como você ousa? – pergunta ela a Kyle.
- Perdoe-me, Grande Rainha.
- Ela irá se casar com o príncipe da Irlanda.
- Eu sei, e peço perdão pela minha transgressão.
- Escute, nós o acolhemos e você sempre foi um bom rapaz. Temos muita consideração por você, mas se isso se repetir você será expulso. Compreendeu?
- Sim, senhora.
À noite, depois de encerrar seus afazeres, Kyle vai para o seu quarto. O beijo de Celiny está como uma filmagem que passa repetidamente em sua mente. Ele quer beijá-la de novo, quer senti-la de novo. Ao se sentar na cama, Celiny sai de baixo das cobertas, totalmente nua:
- Celiny, o que você está fazendo? – pergunta Kyle desesperado.
- Perdi minhas roupas enquanto estava vindo para cá.
- Pelo amor de Deus, se vista e saia.
- Muitos homens ficariam felizes em ter uma mulher nua na cama deles.
- Mas não um criado que foi visto beijando uma princesa que está para se casar com um príncipe.
- O que a minha mãe disse para você?
- Que me expulsaria se nos visse se beijando de novo. Se ela vir você nua no meu quarto, vão querer cortar minha cabeça.
- Não estamos na França. – diz ela rindo.
- Celiny, por favor! Você não pode ficar aqui.
- Eu não me importo. – ela se aproxima dele – Você sente o mesmo que eu.
- Celiny... – ele tenta falar, mas seu coração está tão acelerado que ele não consegue se concentrar.
- Você sente o mesmo, eu sei disso.
Ela pega a mão direita dele e coloca no meio dos seus seios, fazendo Kyle sentir seus batimentos:
- Está batendo por você. – diz ela.
Ela começa a desabotoar a camisa dele, ambos estão ofegantes. Ela coloca gentilmente a mão esquerda dela no peito dele, e sente os batimentos dele:
- E eu sei que ele está batendo por mim.
- Nós não podemos.
- Então diga que não me ama.
- Eu... Ah, maldição... Eu amo você desde a primeira vez que a vi. – ele acaricia o rosto dela.
- Por que nunca me disse?
- Eu não achei que seria certo.

- Bem... – ela aproxima os lábios do ouvido esquerdo dele – Não vamos perder mais tempo.
Ela tira a camisa dele e desabotoa a calça. Ele termina de tirar a calça e tira os sapatos, ficando completamente nu. Ela o faz se deitar na cama e fica por cima dele e o beija apaixonadamente, como se não o visse há décadas. Os batimentos de ambos aumentam. Eles se amam e estão demonstrando esse amor de uma forma íntima realizando uma experiência totalmente nova para eles. Os medos que ambos sentem não estão presentes, é uma lembrança distante, praticamente excluída.
Uma hora depois eles estão agarrados um ao outro, trêmulos, mas felizes:
- Acho que agora eu vou para a guilhotina. – diz ele rindo.
- Não estamos na França
- Mas eu definitivamente vou perder a minha cabeça.
- Será que podemos parar de pensar nas desvantagens só um pouco? Eu te amo e é isso que importa.
- Eu sei.
Eles passam a noite juntos. A manhã chega. Kyle acorda e vê que está sozinho, mas mesmo que tenha acordado sozinho ele nunca acordou tão bem em toda sua vida. Ele toma um banho, se arruma, realiza os afazeres da manhã e caminha pela floresta. Ele relembra o momento que passou com Celiny na noite passada, mas pensa sobre o que pode acontecer se caso eles fossem descobertos.
Ele é interrompido de prosseguir mergulhado em seus pensamentos quando alguém o puxa para dentro dos arbustos:
- Celiny! Você quase me matou de susto.
- Foi engraçado.
- Não se alguém nos vir.
- Ninguém vai nos ver. Fique calmo.
- Eu não estou conseguindo ficar calmo.
- Por quê?
- Porque o que fizemos, o que estamos fazendo, é arriscado.
- Mas você não pensou nisso quando fizemos amor.
- Porque foi a primeira vez que tudo pareceu bem. E por mais que eu te ame, a gente...
- Para! Nós podemos sim ficar juntos. Vamos fugir hoje à noite.
- O que?
- Vamos fugir hoje à noite. Eu conheço alguns lugares para os quais nós podemos ir, e com as joias que eu tenho podemos obter um bom dinheiro se as vendermos.
- Essa ideia de novo.
- Kyle, é a nossa única chance de sermos felizes. Ou você não quer ficar comigo?
- A única coisa que eu quero nesse mundo é ficar com você, para sempre. Mas tem os seus pais, o seu casamento. Tem várias coisas contra nós.
- Eu já disse que não me importo. Hoje nós vamos tomar conta de nossas vidas e sermos felizes. Nada vai nos impedir.
- Como você pode ter tanta certeza?
-Procuro ser otimista. Deveria tentar.
Momentos como esse faz Kyle lembrar-se do porque ele ama tanto Celiny. Quando as lembranças do passado o deixam acorrentado, ela é quem o liberta, ela é quem o tira de uma escuridão tenebrosa e o leva até uma manhã brilhante. Olhando nos olhos dela, ele não tem mais temores. Pelo contrário, agora sim ele acredita que o amor deles pode viver livremente:
- Posso te dizer algo?
- O que?
- Eu finalmente estou feliz.
- Então me deixe continuar fazendo você feliz, para sempre.
- Como a gente vai fazer?
- À meia noite eu encontro você no seu quarto, de lá nós vamos sair pelas passagens secretas. Entramos em um dos carros e saímos do castelo. Podemos pegar um navio e aí...
- Para onde exatamente você quer ir?
- Eu pensei em Toscana.
- Podíamos mudar nossas identidades.
- Não é um pouco extremo?
- Eu tenho certeza que os Grandes Rei e Rainha da Europa mandarão seus guardas e mandarão os demais reinos da Europa procurar pela Grande Princesa.
- E se fôssemos para outro continente. Ásia, talvez?
 - Pode ser, mas se alguém perceber que você está lá, e vamos admitir você não é do tipo que é impossível de chamar a atenção, podemos arriscar uma guerra entre os Grandes Reinos.
- Não seria para tanto.
- Seria sim, por isso que sugeri de mudar as nossas identidades.
- Vamos primeiro sair daqui do castelo e depois nós resolvemos qual será o próximo, está bem?
- Está bem.
- Vai dar certo, eu sei disso.
Eles se beijam e saem dos arbustos. Porém eles não sabem que o espião das Foices Vermelhas estava ali perto. Ele seguiu Kyle e ficou bem perto de onde ele e Celiny estavam e ouviu todo o plano deles. Ele imediatamente vai para a Sala Real informar ao Grande Rei a Grande Rainha sobre o plano deles:
- Tem certeza disso? – pergunta o Grande Rei.
- Sim, meu Grande Rei.
- Eu não acredito! – grita a Grande Rainha – Aquele insolente, como ele...? Eu os vi se beijando! Deveria ter previsto isso.
- E nós iremos acabar com esse problema, hoje à noite. Obrigado por nos ter informado.
- Apenas cumprindo meu dever, Grande Rei.
O espião se retira da sala, e a Grande Rainha o observa enquanto ele vai embora:
- Meu amor, você já o viu antes?
- Vi quem?
- Este guarda que nos informou sobre Celiny.
- Sim, o que tem ele?
- Ele não me parece familiar.
- Temos vários guardas reais no castelo, é impossível memorizar o rosto de todos eles.
- Fale por si mesmo, eu consigo.
- Duvido.
- Estou falando sério, e eu nunca vi este homem antes.
- Deixe o guarda para lá, temos que nos preocupar com nossa filha.
À noite, Celiny sai do seu quarto com a mala pronta e caminha até o quarto de Kyle. Ela bate na porta e ele a abre:
- Está pronto? – pergunta ela eufórica.
- Estou. – diz ele pegando a mão dela.
Eles caminham até o lado de fora do castelo, rumo a uma das passagens secretas. Celiny possui a chave para essa passagem, chave esta que foi dada a ela para o caso de haver alguma invasão no castelo. Ao inserir a chave no cadeado, o Grande Rei e Rainha chegam com os guardas. O coração de ambos acelera, seus sonhos estão perdidos:
- Venha agora Celiny! – grita o Grande Rei.
Ela olha para Kyle e caminha devagar com lágrima nos olhos até onde os seus pais estão:
- E você... – diz o Grande Rei para Kyle – Nós o abrigamos você e é desta forma que nos paga.
- Nós nos amamos.
- Você será punido por isso Kyle. Guardas prendam-no.
Enquanto os guardas caminham até Kyle, o espião corre até ele e joga ácido no lado esquerdo de sua face. Kyle grita de dor. Os guardas agarram o espião e Celiny corre o seu amado:
- Ah meu Deus, Kyle! Você está bem?
Quando ele ergue o rosto e a olha ela se assusta e se afasta dele. Todos ali ficam assustados:
- Não pode ser! – diz o Grande Rei.
- Ele é um deles. – diz a Grande Rainha – Celiny venha para cá, rápido!
Ela corre para o lado de sua mãe, não deixando que Kyle a toque. O rapaz fica sem entender o que está havendo:
- Minha filha ele a enfeitiçou?
Celiny olha para Kyle, para a parte do rosto afetada pelo ácido que revelou um meio rosto demoníaco. Trêmula de medo, ela acena que sim com a cabeça:
- Celiny, o que você está fazendo? – pergunta Kyle desesperado.
- Mate-o! – ordena o Grande Rei.
Um dos guardas enfia sua espada no abdômen de Kyle. Enquanto ele grita de dor, Celiny sai correndo apavorada. Ela corre desesperada, sem olhar para trás, apenas ouvindo Kyle chamar por ela. Outro guarda se aproxima carregando a espada e pretendendo usá-la para cortar a cabeça de Kyle.
O guarda ergue a espada e Kyle acaba se transformando em uma criatura demoníaca com asas. O Grande Rei ordena novamente para os guardas matá-lo enquanto foge com a Grande Rainha, mas nenhum deles consegue atacar Kyle. Ele agarra o braço de um dos guardas e o arranca. Os outros guardas se assustam com o que aconteceu e ele começa a correr.
Ele alcança o muro e começa a escalá-lo. Chegando ao topo ele salta e começa voar. Ele sobrevoa a cidade, com a brisa gelada batendo em seu rosto, e vai para uma floresta longe de Londres. Ele pousa e se recosta numa árvore, pensando sobre o que acabou de acontecer, mas principalmente pensando em Celiny tê-lo abandonado. Ele olha para as mãos dele e depois para o corpo todo. A pele é um vermelho sangue, no lugar das unhas há garras, sem contar as asas.
Há um lago perto dali. Ele caminha até o lago e olha o seu reflexo, assustando-se com seu próprio rosto:
- O que aconteceu comigo?
Sua voz também está alterada. Ele começa a chorar de desespero. Ele virou um monstro, quase foi morto e foi abandonado por sua amada. Seu mundo se estilhaçou. Em meio ao pranto, ele retorna à sua forma humana e um portal se abre perto dele. De lá surge o homem que o salvou vinte anos atrás, ainda com a mesma aparência daquele período:
- Você...
- Olá Kyle. – ele estende a mão direita – Está na hora de sairmos daqui.