Translate

sábado, 6 de janeiro de 2018

Os Filhos do Anjo Caído - Capítulo 1: Olhos verdes

2008

Em algum lugar de uma Inglaterra noturna, um lugar isolado banhado por florestas úmidas. O som de animais se esgueirando pelas folhas pode ser ouvido, mas há um som mais alto, um som perturbador, vindo de uma cabana. Na cozinha, um garotinho está escondido debaixo da mesa, ouvindo os seus pais discutirem. Ele tampa os ouvidos apenas querendo que isso pare.
Os gritos continuam, a porta da cozinha é derrubada, e junto com ela uma mulher cai no chão. É a mãe do garotinho:
- Por favor, não faça isso! – grita ela desesperada.
- Grite mais! – diz um homem entrando com um machado.
- Por favor! Nós temos um filho, pelo amor de Deus!
Ele golpeia a cabeça dela com o machado, sem parar. Sangue espirra em seus olhos furiosos. Tudo é testemunhado pelo garotinho, que sai de baixo da mesa e tenta fugir. O pai dele o vê fugindo e o persegue:
- Volte aqui!
O garotinho corre desesperado e acaba tropeçando numa pedra. Ele olha para trás e vê o pai erguendo o machado, pronto para matá-lo. O garoto fecha os olhos e segundos depois ouve um baque no chão. Ele abre os olhos e vê o pai caído, com a pedra em que tropeçou cravada no peito dele. Aproximando-se lentamente até o cadáver, o garotinho chama por ele. Nenhuma resposta. Ele olha nos olhos do cadáver e vê um olhar pacífico. Tudo o que ele conhecia e amava não existia mais, só o que resta é correr. Ele corre, e corre, e corre.
O dia amanhece. O garotinho acorda com os raios de sol iluminando seu rosto. Ele acorda, com flashes da noite passada. Enquanto ele se levanta, com os flashes martelando sua cabeça, ele sente frio e fome, e então a sensação de desespero toma conta. Ele caminha como se estivesse procurando alguma coisa, ou alguém que o salve.
Uma voz e risos são ouvidos. Ele segue a direção da voz e encontra uma menininha branca de cabelos pretos esvoaçantes ao vento. Ela está cantando e olhando para o céu. Ele caminha até ela e acaba tropeçando em uma pedra e cai. A garotinha olha para ele e caminha até ele:
- Oi, você está bem? – pergunta ela sorridente.
Ele se põe de joelhos e fica hipnotizado pelo brilho dos olhos verdes dela:
- Meu nome é Celiny. – diz ela estendendo a mão direita – Qual o seu?
-... Kyle. – diz ele em voz baixa.
- Oi, Kyle. Você mora aqui?
-... Eu não sei.
- Quer brincar comigo? Eu estava brincando de fazer uma música para as nuvens. Quer brincar de cantar uma música para os peixes?
-... Que peixes?
- Do rio ali embaixo. – diz ela apontando para a sua esquerda, onde a poucos metros à frente está localizado o rio – Vem comigo.
Ela corre até a direção do rio. O chão está úmido. Ela escorrega e cai. A garotinha grita por socorro e luta para não afundar, mas ela não consegue e a água começa a tragá-la. Instintivamente, Kyle pula na água e nada atrás de Celiny. O pai dele era um ótimo nadador e o havia ensinado a nadar. A diferença é que ele havia aprendido a nadar em um lago, não em um rio.
Os dedos pequeninos dele alcançam os dela. Ela se agarra nele, mas ambos afundam cada vez mais. A água penetra a fundo seus pequenos pulmões, o ar se esgota, a escuridão se espalha. Até que algo os puxa, e em questão de segundos os traz à superfície, com a luz quase cegando seus pequenos olhos e o ar forçando sua entrada nos pulmões.
Kyle vê o que provavelmente os salvou. Uma figura alta de cabelos longos e asas negras que estão se retraindo e deixando a figura com uma forma mais humana:
- Nos veremos em breve, Kyle.
A figura vai embora, sem que Kyle possa ver o rosto dela. Duas pessoas correm até eles, uma delas é uma mulher de aproximadamente 30 anos e o outro um homem de aproximadamente 45 anos. Eles chamam por Celiny, que ainda está cuspindo a água que ainda está cuspindo a água que engoliu. Eles a abraçam e perguntam se ela está bem, e depois perguntam quem é o rapazinho ao lado dela, e ela responde com um sorriso que ele salvou a vida dela.
Após vestir ambos com roupas secas, o homem se apresenta para Kyle. Seu nome é Aidan, o chofer real, e o da mulher Carrie, uma criada responsável por cuidar de Celiny:
- Então qual é o seu nome, garoto? – pergunta Aidan.
- Ele é Kyle, e ele me salvou. – diz Celiny sorrindo.
- Sim, e nós sabemos disso, Celiny. Bem, exceto a parte do nome. – diz Aidan – Então, Kyle, certo? Onde estão seus pais, Kyle?
- Eles estão... – ele simplesmente aponta para a direção onde ficava sua casa.
- Eles estão lá? Tudo bem, eu levo você para os seus pais.
- Eu quero ir junto. – diz Celiny.
- Também quero conhecer os pais dele. – diz Carrie – Podemos falar com o Grande Rei para que eles sejam recompensados, afinal não é todo dia que um rapazinho arrisca sua vida para salvar nossa princesinha. – diz ela acariciando o rosto de Kyle.
Eles caminham. Celiny anda de mãos dadas com Kyle, estando toda sorridente enquanto Kyle permanece quieto e com um vazio e melancólico olhar. Quando se aproximam da cabana, eles veem o corpo do pai de Kyle:
- Ele está dormindo? – pergunta Celiny.
- Acho que não, querida. – diz Carrie.
Aidan se aproxima do corpo, ficando horrorizado com ao ver uma pedra cravada no peito do homem. Ele vê a porta aberta e, tremendo de medo, caminha até lá. Ele finalmente entra. O coração está galopando, e acelera mais ainda quando vê a aterrorizadora imagem de uma mulher com a cabeça depredada.
Ele corre para o lado de fora e conta o que viu para Carrie, que obviamente se choca com o que Aidan lhe revela. Os dois decidem levar o garotinho para o castelo. Aidan dirige a Limusine, com Carrie sentada no banco do passageiro e Celiny sentados no banco de trás. Pelo espelho retrovisor, Aidan pode ver no olhar de Kyle a sensação de desamparo. Ele tenta imaginar o que o garoto deve ter visto, mas algo assim não se dá para imaginar. Uma dor e horror tão grandes só podem ser sentidas, não imaginadas.
Mais de uma hora e depois eles chegam a Londres. Uma Londres clássica, porém mais brilhante do que nunca. Uma utópica e futurista Londres da década de 1950. O carro atravessa os portões enormes guardados por quatro soldados. Aidan e Carrie acenam para eles ao entrar. Eles atravessam uma longa rua até estacionar em frente a alguns degraus que levam até a porta principal do castelo.
Um dos empregados abre a porta e eles são recepcionados pelo Grande Rei e Rainha da Europa, os pais de Celiny. Celiny abraça sua mãe enquanto o Grande Rei pergunta quem é o garotinho que veio junto com eles:
- Se me permite, podemos falar a sós, Grande Rei.
- Claro. – diz ele de forma gentil e cordial.
Eles conversam na cozinha, e Aidan explica como encontrou Kyle e o destino dos pais dele:
- Os dois estavam mortos, meu Grande Rei. O pai estava com uma pedra cravada no peito e mãe teve sua cabeça estilhaçada.
- Quem teria feito tal atrocidade?
- Um Filho do Anjo Caído?
- Eu duvido. Eles desapareceram para nunca mais serem vistos.
- Foice Vermelha?
- Não é do feitio deles.
- Alguém tão jovem não deveria ter testemunhado tamanha monstruosidade. E o pior é que ele não tem para onde ir.
- Bem, poderíamos deixá-lo em um orfanato, mas ele arriscou sua vida para salvar minha filha. Se eu permitir que ele fique aqui, você cuidaria dele?
- Mas é claro, Grande Rei.
- Então está feito. A partir de hoje o rapaz terá uma nova casa e um novo guardião.
À noite, do lado de fora, o homem que salvou Kyle e Celiny observa o castelo. Ele conjura um feitiço para abrir um portal que o leva até o quarto onde o pequeno Kyle está. Ele observa o garoto dormindo em paz, como se a tragédia que aconteceu na noite anterior fosse inexistente:

- Aproveite esse instante de paz, pequeno Kyle. – diz ele sussurrando – Porque ela irá acabar.

Nenhum comentário:

Postar um comentário